Fundador do PS dá explicação inacreditável: Portugal adquire submarinos para impedir independência dos Açores
06 Maio 2009 [Reportagem]

A questão do independentismo açoriano volta à ribalta com um artigo publicado por Dieter Dellinguer, fundador do Partido Socialista em Portugal, embora de origem alemã. Em sua opinião, um dos argumentos que justificam a aquisição de dois submarinos para a Marinha portuguesa é impedir o apoio marítimo a uma tentativa de independência dos Açores e Madeira - uma leitura “só possível no reino das sombras”, na opinião dos independistas açorianos.
Uma das funções dos submarinos portugueses em construção ‘Tridente’ e ‘Arpão’ é “impedir o apoio marítimo a uma tentativa independentista dos arquipélagos da Madeira e dos Açores que poderão procurar noutros lados os apoios financeiros que o Continente pode não estar em condições de dar. E não têm faltado ameaças de, pelo menos, um governo regional”.
A convicção é do redactor da revista da Marinha, Dieter Dellinguer, que escreveu o livro ‘Um Século de Guerra no Mar” e é um dos fundadores do PS e figura de destaque do partido ao lado de personalidades como António Macedo, Mário Soares, Jaime Gama, Salgado Zenha, Tito de Morais, Rui Mateus, Victor Cunha Rego entre tantos outros.
Foi um dos primeiros emigrantes alemães que chegaram a Portugal e, hoje, na Revista da Marinha, dedica-se à história náutica, aos navios e à Marinha portuguesa.
Deixa claro que “os dois novos submarinos serão, sem dúvida, respeitados por qualquer submarino nuclear de ataque norte-americano como os da classe “Los Angeles” muito ruidosos ou da nova classe “Virgínia” muito simplificados”, refere o autor no artigo publicado a 10 de Abril no “Fórum de Militantes e Simpatizantes Socialistas das freguesias do Lumiar, Ameixoleira e Charneca, em Lisboa”.
“Pelas suas características de silêncio absoluto, quase nula assinatura sonar e capacidade para navegarem em profundidade durante um largo tempo sem serem detectados por navios ou submarinos adversos, os U 209PN serão verdadeiros “guerrilheiros” do mar, temíveis por poderem atacar submarinos, navios de superfície e mesmo importantes alvos terrestres”, escreve o especialista da revista da Marinha.
Dellinguer, que foi deputado socialista na primeira legislatura da Assembleia da República, escreve que os EUA “teriam sempre interesse numa Madeira e nuns Açores independentes que se tornariam em seus protectorados. Uma Espanha também teria o mesmo interesse, principalmente se Portugal estivesse desgovernado por falta de uma maioria parlamentar ou por lutas intestinas muito graves”.
E o fundador do Partido Socialista explica que, “numa situação dessas, do exterior poderia não haver invasão, mas apenas ‘apoio humanitário’ em medicamentos e, porque não, armas como mísseis anti-navio e anti-aéreos embalados em caixotes com o emblema da Cruz Vermelha Internacional, embarcados num navio mercante”.
No seu entender, “o torpedeamento ou obrigação de paragem de navios ‘humanitários’ faria mudar a situação radicalmente sem que as marinhas estrangeiras estivessem interessadas num combate”.
É que, como explica, os meios bélicos próprios para o combate “não servem sempre para isso sob o ponto de vista político. Uma coisa é a ‘ajuda humanitária’, outra coisa é o combate em águas territoriais de outro país. O inverso não é o mesmo. A nação jurídica tem todo o direito de travar combate seja contra quem for no seu território ou no mar adjacente e o direito internacional não o pode impedir”.
Nestes termos, realça o ex-deputado do PS na Assembleia da República, os dois submarinos “são um instrumento do direito do Estado português que pode ameaçar todo e qualquer contraventor desse mesmo direito e podem impedir a tempo uma situação do tipo Kosovo. Nenhuma marinha estaria à vontade nos mares insulares, sabendo da presença de um terrível e invisível inimigo”, sublinha Dieter Dellinguer..
Explica, a propósito, que as forças armadas de um pequeno país “destinam-se a obrigar um agressor a travar combate” e esse facto “é intolerável no âmbito do direito internacional, apesar de nem sempre ser bem sucedido”.
Recorda, em sequência, que apoios “humanitários” deste tipo “não têm faltado” no Mundo desde 1945 até hoje.
A convicção do fundador do Partido Socialista é a de que a “crescente desorganização da União Europeia devido à crise leva a imaginar o seu quase desmembramento” até porque, actualmente, “cada nação trabalha por sua conta”.
É seu entendimento que, no seio da União, “já não há disciplina na zona Euro e ninguém sabe o que fazer. O proteccionismo instala-se e pouco falta para surgirem apetites bélicos para desviar as atenções dos 30 a 40 milhões de desempregados que poderão ser registados até ao fim do ano corrente”.
Considera que a “tão morosa unidade europeia pode desaparecer de um dia para o outro e ser substituída por eixos como o de Paris-Berlim e, porque não, Paris-Berlim-Madrid. Esse sim, muito perigoso para Portugal a oeste e para a Polónia a leste”.
Dellinguer é de opinião que, em termos genéricos, a aquisição de duas fragatas holandesas muito modernas com baixa assinatura radar e “excelente equipamento de combate” a juntar às três “Vasco da Gama” e a próxima chegada a Portugal dos dois submarinos NRP “Tridente” e NRP “Arpão” (U-209PN) vieram proporcionar à Marinha de Guerra portuguesa “um excelente” poder militar.
Na leitura de certos blogs militares de Espanha, verifica-se que “está a causar um engulho muito grande a presença dos dois U-209PN (U-214) naquilo que para a Marinha espanhola foi sempre o seu mar e para os portugueses é naturalmente o mar português que se estende à vasta zona exclusiva marítima dos Açores e da Madeira. Os espanhóis escrevem algumas vezes que as águas territoriais portuguesas são a ponte marítima entre o Norte e o Sul da Espanha, sendo, por isso, vitais para os interesses castelhanos” – diz o redactor da revista da Marinha para concluir: “O medo é sempre o maior inimigo de um povo”.
Escrito no reino das sombras
Este escrito do fundador do PS em Portugal, Dieter Dellinguir, é revelador de uma “inquietação e nervosismo” que perpassa não só todo o espectro político partidário nacional como é perfeitamente identificável em órgãos de soberania apartidários.
O independentismo açoriano prepara-se, a partir da data histórica de 6 de Junho, para sair do silêncio a que se remeteu. E, ainda recentemente, José de Almeida quando questionado pelo ‘Correio dos Açores’ sobre se ainda se considerava líder da Frente de Libertação dos Açores, respondia com naturalidade: “Ainda sou uma presença viva da FLA”.
Está fora dos seus horizontes uma relação privilegiada com os movimentos independentistas espanhóis. “A independência dos Açores – afirma – não pode, não deve, nem sequer inclinar-se para nenhum ponto cardeal. Pode e deve, sim, saber quem lhe convém para companheiros de caminhada independentista. E, pessoalmente, continuo a exigir que há dois países indispensáveis para, em bem, acontecer a independência dos Açores – Portugal e os Estados Unidos da América”.
Não sendo um homem do terreno no 6 de Junho de 1975, José de Almeida não descarta a hipótese de um outro 6 de Junho nos Açores. “Quem poderá dizer que não haverá? E ao dar-se, nunca mais é igual…”, conclui.
Acredita que verá um novo 6 de Junho ainda vivo? “Acredito se, naturalmente, me deixarem viver”, afirma.
Reúne com amigos seus, no seu prédito, nas Capelas? “Não respondo a esta pergunta” - diz numa longa conversa que o ‘Correio dos Açores’ vai publicar oportunamente.
Quando fez estas declarações, José de Almeida desconhecia este artigo do fundador do Partido Socialista português. E ontem, quando o contactámos, sorriu e deixou escapar apenas umas palavras numa curta conversa telefónica informal: “Há imensas sombras em tudo isso. Estamos dominados pelo reino das sombras”.
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