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Reservas de água já baixaram 30% devido ao esbanjamento e ao tempo seco : São Miguel poderá ficar sem água dentro de poucos anos

28 Junho 2009 [Reportagem]

A manter-se este longo período da época estival que temos vindo a ter e, sem que haja uma redução significativa nos desperdícios nos consumos de água, prevejo que iremos ter, brevemente, problemas gravíssimos no que diz respeito ao abastecimento deste bem esgotável às populações. Quem o diz, com sérias preocupações é o presidente da Associação de Municípios da Ilha de São Miguel e autarca, Rui Melo. Os caudais e as reservas de água disponível já baixaram cerca de 30 por cento face ao registado no último ano e, em Maio do corrente, os índices de consumo atingidos já eram equivalentes aos do mês de Agosto de 2007, altura em que se registou os maiores gastos por parte da população micaelense. Também segundo os Serviços Municipalizados do maior concelho dos Açores, Ponta Delgada poderá, caso não sejam tomadas medidas no sentida da poupança de água, a disponibilidade, já decrescente, deste bem à população, poderá vir a sofrer quebras bastante acentuadas.

A falta de água em São Miguel já começa a ser uma grande preocupação para todos os municípios, causada pela diminuição significativa de chuvas, aponta já para valores de redução dos caudais de reservas que rondam os 30%.
Estes valores referem-se à observação que tem vindo a ser feita não só aos níveis actuais de armazenamento das nossas lagoas quer, inclusive, das nossas nascentes e reservatórios e face a este panorama, o presidente da Associação de Municípios da Ilha de São Miguel, Rui Melo alerta todos os micaelenses para a urgência de adopção de medidas drásticas no que diz respeito à poupança do consumo de água em toda a ilha.
Se esta consciencialização e a concretização destas medidas não acontecer, quer da parte da população quer mesmo da parte das entidades responsáveis por este sector, Rui Melo não tem dúvidas ao afirmar que, em breve, a ilha deparar-se-á com um grave problema de falta de água.
Esta percepção do responsável máximo da AMISM resulta, como referiu, de diversas conversas que têm sido mantidas pelos diversos autarcas da ilha de São Miguel sobre o assunto e as equipas técnicas já estão, inclusivamente, no terreno, fazendo o levantamento das quebras no abastecimento de água às populações, em cada um dos concelhos, para além de estarem já a ser estudas e procuradas novas soluções para amenizar a situação que se perspectiva possa vir a acontecer, sendo que uma das soluções passa pela abertura de novas captações, mesmo em nascentes de pequena dimensão.
A manter-se este longo período da época estival que temos vindo a ter e, sem que haja uma redução significativa nos desperdícios nos consumos de água, prevejo que iremos ter, brevemente, problemas gravíssimos no que diz respeito ao abastecimento deste bem esgotável às populações, salienta ainda Rui Melo.
A título de exemplo, o presidente da AMISM refere que no passado mês de Maio, os consumos encontravam-se já no pico que, por norma é apenas atingido em Agosto, altura do ano em que os gastos de água são, por norma, mais elevados. Se em Agosto, em média, se verificarem temperaturas acima dos 25 graus centígrados, tenho a certeza que iremos verificar graves problemas de falta de água, acrescenta.
Um dos sectores que mais cedo e já começa a sentir esta escassez é o da lavoura e já são mesmo muitos os lavradores que têm tido que se deslocar diversos quilómetros para poderem abastecer os seus tanques e depois fornecer a água ao seu gado e Rui Melo culpa o Governo de este não ter feito os investimentos necessários para que a rede de abastecimento de água à lavoura deixe de ser insuficiente. Deveriam ser acelerados os investimentos dentro do perímetro agrário.
Vestindo a pele de presidente da Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, concelho que anualmente se debate com maiores problemas de falta de água para consumo, Rui Melo diz mesmo que, no início do ano enviou ao Governo regional e a diversas associações ligadas à actividade em causa uma carta a alertar para a necessidade de investimento rápido nas infra-estruturas de captação de água para os lavradores e agricultores, caso contrário a água iria mesmo faltar. Certo é que as suas previsões concretizaram-se e, em pleno mês de Junho, a água já escasseia nas torneiras do concelho.
Para além do problema da falta de chuva e de infraestruturas capazes, o factor desperdício é outro dos factores que interessa ter em linha de conta, pois ainda são muitos os maus hábitos que necessitam ser combatidos junto dos consumidores micaelenses. Face a isso, Rui Melo refere que, segundo os técnicos, a única fórmula existente para que possa haver uma racionalização da água, consiste no aumento do preço pago pela água. Não há outra solução, mas a nossa preocupação é apenas uma: daqui a dias as pessoas vão disponibilizar-se a pagar caro pela água, mas não vão tê-la, mesmo a preço de ouro.
Como tal, a receita para este problema passará sempre pela mobilização de todas as instituições e população em geral que permita, de imediato, a poupança e reutilização da água.

Disponibilidade de água para Ponta Delgada neste Verão será bastante menor

Contactada também pelo nosso jornal, a presidente do Conselho de Administração dos SMAS - Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Ponta Delgada, Berta Cabral e traçando um cenário igualmente preocupante no que diz respeito a esta matéria, refere que com os dados de que os Serviços dispõem, prevê-se que, neste Verão, a disponibilidade de água será bastante menor, uma vez que as nascentes captadas estão, notoriamente, com caudais bastante inferiores aos apresentados nos últimos anos em iguais períodos, em resultado da fraca pluviosidade que se registou no passado Inverno.
Contudo, atendendo que os SMAS de Ponta Delgada dispõem de diversas origens de água, a responsável máxima crê que, com uma gestão cuidada da água que temos sabido fazer e com a colaboração dos munícipes em responder aos nossos apelos direccionados para a poupança da água, ultrapassaremos este ano de seca sem cortes de água e salienta que os investimentos realizados em Ponta Delgada, de forma adequada e atempada, permitiram evitar os problemas de abastecimento de água que, infelizmente, já se verificam noutros concelhos.
Segundo a também autarca do maior concelho de São Miguel, têm sido feitos, especialmente da parte dos SMAS de Ponta Delgada, bastantes esforços no sentido de sensibilizar os cidadãos para reduzir os seus consumos, promovendo campanhas pelas escolas, distribuição de folhetos e, mais recentemente, também na imprensa e na rádio. Um dos alvos da população mais visados por estas mesmas campanhas têm sido as crianças, através da realização de inúmeras acções de sensibilização nas escolas, há largos anos, antes de se avizinhar este período de seca, uma vez que os SMAS consideram que estas acções acabam por ser, igualmente, do interesse desta entidade gestora a protecção deste recurso, não fosse ele um bem essencial à vida.
Segundo demonstram os dados fornecidos ao nosso jornal pela presidente do Conselho de Administração dos SMAS, a evolução do consumo de água ao longo dos últimos quatro anos no concelho de Ponta Delgada tem sido irregular. O volume anual de metros cúbicos foi de 6.306.865 em 2005, 6.445.564 em 2006, 6.385.838 em 2007 e 6.557.478 em 2008. Ao mesmo tempo, o número de instalações tem vindo sempre a crescer, desde as 29.162 em 2005 até às 31.059 em 2008. Assim, o rácio de metros cúbicos por instalação, durante esses quatro anos, foi, respectivamente, de 216.3, 215.2, 210.1 e 211.1. Assim, verifica-se que ocorreu um decréscimo dos consumos até 2007 e apenas no ano passado a média registou um ligeiro aumento, sem dúvida ligado ao facto de 2008 ter sido um ano relativamente seco em comparação com os anteriores.
Ainda este ano, entretanto, os SMAS prevêem a entrada em funcionamento de mais um furo de captação, cuja data de arranque dependerá do decorrer de todos os procedimentos legais inerentes à sua execução e exploração, que se situará na freguesia dos Arrifes.

Autor: Ana Coelho

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