Director: Américo Natalino de Viveiros Director Adjunto: Santos Narciso
Escolha a cor do seu tema: Skin Vermelha Skin Verde Clara Skin Azul Skin Azul Bébé Skin Amarela

Gráfica Açoreana   Diario dos Açores   Atlantico Expresso   Associanissima

Arquivos
A A A

Opinião de Rosa Nunes: PSócrates

07 Fevereiro 2010 [Opinião]

O que se passou na última semana em Portugal, a nível político, demonstra bem a qualidade de governantes e parlamentares que temos.
Durante o último ano, por numerosas vezes, escrevemos neste mesmo órgão de comunicação social, que gostaríamos de ver José Sócrates governar o país sem maioria absoluta.
Felizmente, ao conceder uma maioria relativa ao governo de José Sócrates, os cidadãos permitiram-nos saber a qualidade de quem nos governou de modo ditatorial por um quadriénio e que está, por igual período, mandatado para o fazer novamente, mas sem poder absoluto.
Governar com maioria absoluta, numa verdadeira situação de quero, posso e mando, foi tão fácil para José Sócrates, que me atrevo a afirmar que o mais inábil dos políticos o pode fazer.
Não há nada a negociar, e se existe ocasionalmente algum diálogo político é apenas para que conste, na medida em que, nos finalmentes, por votação partidária tudo esta aceite conforme as intenções do governo ou do parlamento.
Governar em minoria é um acto político que obriga a fazer o melhor, a negociar e a aceitar a negativa se necessário, em suma a ser um bom governante no meio da possível contestação da oposição.
O que José Sócrates e Teixeira da Silva fizeram durante os últimos cem dias, após perderem a sua capacidade de decidir unilateralmente e sem negociarem com a oposição, foi desviar a atenção da sua pouco hábil capacidade de governar democraticamente, criando nos portugueses o medo generalizado no futuro.
Trata-se, em minha opinião, de tentar manter o poder a todo o custo, aproveitando para, de modo preventivo ir mostrando que se algo correr mal não é consequência da sua actuação, partindo para a ameaça de uma crise e a possível demissão do governo.
Foi o que fez Teixeira dos Santos na última conferencia, após a aprovação na generalidade do aumento de endividamento das regiões autónomas portuguesas, em que criando expectativas aos cidadãos portugueses - muitas tendo a ver com a ideia de que o homem fosse apresentar a sua demissão de ministro das finanças apenas repetiu o repetido por numerosas vezes e nada acrescentou.
Pura fantochada política, feita perante uma maioria de portugueses que de olhos/ouvidos postos num meio de comunicação social deviam estar a pensar para si mesmos, se mereciam estes governantes.
Afirmou Teixeira dos Santos e José Sócrates que caso subsistissem determinadas situações, como por exemplo as relativas à lei de finanças regionais, o país enfrentaria uma crise.
Como se o país estivesse numa situação económica e social belíssima.
Só não entendo é desde quando os portugueses não estão em situação de crises sucessivas e praticamente perpetuas, para terem de enfrentar uma nova?
A crise faz parte do nosso dia a dia e se, por qualquer milagre, esta deixasse de existir os portugueses acabariam por morrer de tédio.
Com um orçamento com origem num partido socialista, remendado a bem prazer de uma direita que tem como característica governar como parasita, o orçamento de estado de 2010 não é mais do que uma oportunidade do primeiro-ministro continuar no governo.
Estou certo que José Sócrates desejaria mais apresentar-se perante os portugueses como um político a quem não deixam governar do que como um chefe de governo que tem um orçamento remendado e tem de governar para não deixar a sua imagem pelas ruas da amargura.
A seguir ao orçamento foi necessário criar outro caso político de modo a que houvesse a possibilidade de abandonar o barco da governação, sem deixar a marca da incompetência socialista.
A lei de finanças regionais e o caso do limite de endividamento por parte dos governos regionais foi a segunda tentativa, entre ranger de dentes e ameaças por parte do governo socialista, de abandonar a governação.
Infelizmente para José Sócrates e o seu fiel jardineiro Teixeira dos Santos, eles vão-se ver obrigados a governar, se calhar não por muito tempo.
Claro que não concordo que João Jardim tenha tudo o que lhe é possível ameaçar e extorquir, mas convenhamos que a Madeira é neste momento, na miséria que se faz sentir pelo país (inclusive em determinadas parte daquele espaço insular), a segunda região com o produto interno bruto per capita mais elevados.
Por incrível que pareça a seguir a uma discussão em torno de 50 milhões de euros, surge agora uma deputada europeia do partido social democrata a afirmar que a Europa está disponível para renegociar com Portugal a concessão de uma maior percentagem na participação financeira quadrienal para o país, o que se o governo de José Sócrates assim o diligenciar, dará origem a uma ajuda de mais 3300 milhões de euros.
Se a isso juntarmos mais e mais actos de governação com gastos extraordinariamente elevados e que em nada contribuíram para o desenvolvimento sustentado do país, estaremos perante um valor de endividamento insignificante.
Tanto mais, como por diversas vezes foi afirmado, este valor não tem representatividade significativa a nível do orçamento do estado.
Tudo isto serve para criar acontecimentos/factos políticos que levam os portugueses a não pensarem no que existe de mais importante para resolver neste país.
É uma diversão, tal como o carnaval, só que sem mascaras.
Estes cem dias da governação de José Sócrates, a sua cedência perante a pressão da classe dos enfermeiros e as próprias negociações que têm vindo a ocorrer na assembleia da república, são o principio de uma atravessar do cabo das tormentas para o governo socialista de José Sócrates.
O funcionalismo público, que são muitas dezenas de milhares, já deram uma pequena ideia de que não estão disposto a aceitar as condições que o governo lhes quer impingir para o corrente ano, no que respeita o aumento salarial.
Foram apenas cerca de cinquenta mil que vieram para a rua.
Uma amostra perante os muitos outros cinquenta mil, que podem destronar a manifestação de docentes que, na legislatura anterior de José Sócrates, ocorreu e juntou mais de cem mil.
No conjunto dos últimos oito anos, dos quais cinco com Sócrates, apenas num ano os funcionários públicos receberam uma actualização salarial.
A predisposição para serem sempre os mesmos a aguentar as crises, penso eu, passou à história, tanto mais que os exemplos que no decurso da governação, em termos de gastos, se foram fazendo sentir não são os melhores.
Os milhões empanturrados em instituições financeiras, que deveriam ter naturalmente falido, e que graças ao apoio desmesurado do governo ainda subsistem, a política de investimentos em estradas que esventram o país ou a perspectiva de outros de muitíssima reduzida rentabilidade, a alegria com que se fazem viagens para captar investimento (como por exemplo a visita ao amigo Hugo Chavez) que não apresentaram resultados, os negócios militares para manter calma uma classe parasitária neste país, contracenam com as dificuldades do povo e a miséria que se faz sentir.
É com todos estes portugueses, que não reconhecem em José Sócrates qualidades políticas, que o governo se vai ter de entender, só que na rua em manifestações, que juntarão muitos trabalhadores que sentem na pele as dificuldades do dia-a-dia.

Autor: José Manuel Rosa Nunes

Versão de Impressão