O antigo porta-voz de Tony Blair considerou "longo e pomposo" o discurso de Durão Barroso na cimeira dos Açores, em 2003, realizada, no arquipélago, tanto quanto se "recorda", por "ideia" do então primeiro-ministro português, disse à Lusa Alastair Campbell.
“Presumo que a ideia foi sua”, afirmou, referindo-se ao antigo primeiro-ministro Durão Barroso sobre a escolha do arquipélago português para a realização do encontro que reuniu o Presidente dos Estados Unidos, George Bush, e os chefes de governo do Reino Unido, Tony Blair, e de Espanha, Jose Maria Aznar.
Na entrevista à Lusa, Campbell mostrou-se inicialmente evasivo e irónico: “Já não me lembro muito bem. Lembro-me que, em dado momento, foi decidido que seria nos Açores, talvez porque fosse conveniente” por razões geográficas, mas “foi há muitos anos”.
Campbell, que lançou, em Lisboa, o seu diário “Os Anos de Blair”, conta em detalhe os episódios que viveu nos nove anos em que foi director de comunicação e estratega de Tony Blair no Governo britânico.
Na conferência de imprensa que decorreu após a cimeira dos Açores, e que antecedeu a intervenção militar dos Aliados no Iraque, Campbell escreveu que Barroso fez um “discurso longo e pomposo”, frase que inclui no seu livro “Os anos de Blair” ao descrever o processo de decisão que conduziu à entrada da Grã-Bretanha na guerra contra o Iraque.
Hoje, confrontado com a afirmação que incluiu nos diários, replicou: “Eu disse isso? Já não me lembro!”
“Barroso fez uma abertura longa e pomposa e disse que nós tínhamos de fazer um último esforço pela paz”, escreveu, acrescentando: “Porém, havia uma sensação nítida de que se tratava de cumprir calendário.”
Questionado sobre se o chefe de Governo português já estava ao corrente na cimeira de que a decisão de invadir o Iraque estava tomada, Campbell afirmou: “Genuinamente, na altura, era a última ocasião” de se evitar a guerra.
Sobre o ambiente que se viveu durante a cimeira dos Açores, escreveu que “corria como uma situação de guerra e não paz”.
Numa reunião em Downing Street, com o seu homólogo Tony Blair, dias antes da cimeira dos Açores, Durão Barroso disse aos jornalistas que tinha provas de que Saddam Hussein dispunha de armas de destruição maciça.
O antigo chefe de Governo português confirmou ter visto as provas ao ser interrogado pelos jornalistas à saída da residência oficial do primeiro-ministro britânico.
Alastair Campbell declarou hoje que se o ex-primeiro-ministro disse que lhe foram mostradas provas em Downing Street então eram as que estavam baseadas nos relatórios dos serviços secretos.
Instado a esclarecer sobre se se tratava do mesmo tipo de informação do controverso dossier que a BBC divulgou e que alegadamente teria provocado o suicídio do cientista do Governo David Kelly, o antigo director de comunicação de Tony Blair anuiu, mas desmentiu que ele próprio tivesse “apimentado” o relatório para tornar mais convincente a decisão de fazer o Reino Unido entrar na guerra contra o Iraque.
"Não foi uma decisão tomada de ânimo leve", recordou hoje, sublinhando que "foi a decisão mais difícil de tomar pelo antigo chefe do Governo britânico, e que Tony Blair "não a tomou pelo petróleo do Iraque ou para fazer a vontade a George Bush, mas nas circunstâncias, com o sentido sincero de que era a decisão a tomar", sublinhou Campbell.
Durão Barroso garantiu, em 26 de Março de 2003, que apenas consultou o Presidente da República, Jorge Sampaio, antes de decidir sobre a realização da cimeira que juntou nos Açores o Presidente norte-americano e os chefe de governo da Espanha e Reino Unido.
"Só houve em Portugal uma pessoa que consultei antes de decidir (sobre a realização da cimeira), o que mostra o respeito pelo senhor Presidente da República", acentuou na ocasião Durão Barroso, durante uma moção de censura no parlamento.