Versão Impressa

Dos Ginetes: DESABAFOS

21 Maio 2012 [Opinião]

Mesmo se terminadas por completo as Festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, não resisto à tentação de recuar alguns dias até ao Sábado da Mudança da Imagem e da pequena procissão à volta do Campo de S. Francisco.
Sei que para a grande maioria as Festas este ano ficaram marcadas sobretudo pela chuva e pelo vento que se fez sentir ao fim da tarde do Domingo assim como praticamente durante toda a noite. Solidarizo com as vítimas de tais intempéries bem com aqueles que vivendo longe escolheram esta época para visitar a nossa terra, matar saudades dos amigos, mas sobretudo porque mantêm ainda acesa a grande chama da fé no Senhor Santo Cristo dos Milagres. Sei que para muitos foi uma viagem planeada com grande antecedência, mas contra a natureza nestes casos ninguém pode combater.
Apesar de tudo tivemos um maravilhoso Sábado, uma noite marcada por uma temperatura agradável, muito calma, a presença de velhos amigos que vieram propositadamente do Canadá às Festas, tudo isso ornamentado por um magnífico Concerto da minha Filarmónica Minerva dos Ginetes deixou-me mesmo feliz. Acrescentarei que tive todos os ingredientes para me sentir bem.
Cheguei a minha casa bem-disposto perto das duas horas da manhã, e apesar da hora tardia não resisti à tentação de ligar ainda o televisor. Uma imagem maravilhosa do que se estava a passar igualmente em Fátima me levou a questionar se afinal, como tantas vezes repetimos a alta voz se a maioria das nossas gentes perdeu mesmo a fé. Por um lado ainda tinha bem presente na memória as imagens do espírito de sacrifício demonstrado por muita da nossa gente à volta do Campo de S. Francisco, e à minha frente outra imagem de milhares de peregrinos unidos em Oração, muitos deles que durante vários dias percorreram as estradas de Portugal, certamente também com muito sacrifício, a pé rumo à Senhora de Fátima.
Fui levado a pensar que afinal as nossas gentes ainda têm “alguma fé” mas que precisa talvez ser “melhor cultivada”.
Estamos mergulhados numa sociedade praticamente desmotivada, pois perderam-se princípios morais importantes e os ídolos de outrora que não eram essencialmente os artistas da música ou da bola estão a desaparecer lentamente.
Muitas das Instituições da sociedade em que vivemos, melhor dizendo as pessoas que as formam, abandonaram os princípios pelos quais essas mesmas Instituições se regiam, tendo agora muitos indivíduos como prioridade trabalharem primeiramente para o próprio bem-estar, e só depois, se o tempo o permitir, dar alguma atenção a quem precisa. Todos pretendem ter enormes problemas, colocam-se ao centro como se tudo tiver de girar à sua volta, quer sejam médicos, advogados, políticos ou até sacerdotes. Sobre estes últimos, apesar de ter ainda grandes amigos, e de existirem alguns bons, colaboradores, compreensíveis e sinceros, outros para mim no momento são uma grande decepção. Não me vou alongar neste assunto, pelo menos hoje, apesar de sentir o coração bem magoado e a alma em sofrimento por situações “desastrosas” que em nada dignificam tão nobre “vocação”.
Voltando à semana anterior, apesar da grandiosidade da Procissão do Senhor Santo Cristo no Domingo devo confessar que é na Mudança da Imagem no Sábado com o pequeno percurso à volta do Campo de S. Francisco que me sinto verdadeiramente seduzido. Não sei porquê, mas tenho o pressentimento que as pessoas vivem mais aquele espírito de penitência tanto “declamado”, apesar de não concordar plenamente com determinados exageros que um Deus que é bondade, misericórdia e amor não exige de ninguém. É a minha opinião, embora respeite plenamente a daqueles que, compreendo, em momentos de aflição se entregam totalmente, prometendo os maiores sacrifícios, certos de que estão a fazer o seu melhor.
Relativamente ao Domingo, confesso me sentir cada vez mais chocado quando vejo uma suposta manifestação de fé a partir de determinada altura transformada em desfile de personagens, algumas delas que publicamente, sem qualquer receio, assumirem não acreditar mesmo em Deus. Nesse caso deveriam pelo menos ter a decência de declinar delicadamente os convites formulados e restarem em suas casas. Não fariam “figuras tristes” nem seriam objecto de “sorrisos sarcásticos” como eu próprio, confesso, me divirto a enviar-lhes.
Há momentos e lugar para tudo, é necessário apenas distinguir e separar.

Autor: Alberto Ponte


http://www.correiodosacores.net