Uma no cravo, outra na ferradura : O Magalhães é calinas…
28 Março 2009 [Opinião]
Parece impossível, mas é verdade. O Magalhães, o mesmo que foi lançado com pompa e circunstância para as mãos da miudagem, devia estar vermelho de vergonha, virado para a parede e com orelhas de burro, como no tempo dos nossos avós acontecia em algumas situações e com professoras de mau feitio. Talvez que não fosse ele a estar assim, coitadito, mas quem não teve o cuidado de o ensinar a escrever português. Os poucos cabelos que enfeitam a minha baralhada cabecinha tentaram ficar em pé, porque o português era a minha disciplina preferida quando frequentei as escolas. E um arrepio percorreu o meu corpo ao ler o “magalhanês”: “neste processador podes escrever o texto que quiseres, gravar-lo e continuar-lo”. Assim mesmo. E muitos, muitos mais. Dizem que são oitenta. Até que “acabas-te” em vez de acabaste. É ponto final de muita asneira. Enfim, o pobre Magalhães foi anunciado como o primeiro computador português, mas não é bem assim. Ele é originalmente o Classmate PC, produto concebido pela Intel. Assim, tirando o nome, o logótipo e a capa exterior, tudo o resto é idêntico ao produto que a empresa tem estado a vender em várias partes do mundo desde 2006. Aliás, esta já é a segunda versão do produto. E aqui fica uma sugestão: ponham o pobre Magalhães numa escola… mas como aluno. Talvez aprenda a escrever português…E nessa altura, então, ele que venha até aos Açores e será bem recebido.
Talvez não saibam que José Jorge nem sonhava ser notícia em Portugal. É dele a tradução do programa de jogos com erros – uma tradução feita “na desportiva” (como ele diz) para a filha de dois anos. Até muito recentemente, José Jorge nunca tinha ouvido falar no Magalhães. Muito menos suspeitava que o seu nome aparecia associado à polémica em torno dos erros encontrados num dos programas do computador enquanto tradutor do programa GCompris. “Recebi una mensagem do meu irmão, em Lisboa. Dizia que eu estava nas capas dos jornais e não era por boas razões”. Há dois anos emigrado em França e vivendo numa pequena localidade próxima de Toulouse, limitou-se a traduzir a versão gaulesa do programa de actividades para crianças, a pensar na filha mais nova. A ideia era desenvolver a língua portuguesa em casa, visto que há muto se afastou do idioma de Camões. Diz ele: “Tenho o francês como primeira língua. Desde que saí de Portugal que não escrevo em português. Os erros que havia são erros devido a conhecer várias línguas. Misturei um pouco com o espanhol”. O José Jorge nasceu em Bordéus há 35 anos, filho de emigrantes. Com três anos, a família tentou a sorte em Portugal, instalando-se perto do Fundão. A experiência na Beira interior durou apenas até ao José completar os 10 anos. “Vivi em Portugal até à quarta classe. Daí ter dito que o meu português era da quarta classe.” Chegou a estudar Filosofia, mas não terminou o curso. Virou-se para a informática e hoje é técnico informático na segurança social. É casado com uma francesa e tem dois filhos. Nunca pensou um dia ser tão falado. O Magalhães é que continua a dar que falar. Segundo o Diário de Notícias, os professores começam a ficar fartos do famoso portátil azul. Dizem eles que chegam a ser procurados pelos pais dos alunos. E é curiosa a notícia que esta semana chegou às minhas mãos. Diz que o pobre Magalhães já anda mo mercado negro. A professora Helena Amaral, de uma escola de Benfica, em Lisboa, diz que os problemas do desaparecimento dos Magalhães “já eram esperados nalguns casos”. E acrescenta: “Tenho o exemplo de uma família com três irmãos, todos receberam um computador Magalhães de borla porque pertencem ao escalão social A. Duvido que eles ainda tenham algum em casa”. Lembra que nalguns casos “quando os professores avisam o dia em que o computador é necessário na aula, os alunos faltam sempre”. Na opinião da professora – e não só – o pobre Magalhães já foi vendido pelos pais dos alunos. Quer dizer que nem o Magalhães escapa à crise…
Dizia há dias o “Atlântico Expresso” que a cidade de Ponta Delgada vai ter videovigilância, para garantir a segurança de quem percorre as ruas da bonita cidade à beira-mar plantada. E a jornalista foi perguntar a meia dúzia de utentes se estão ou não de acordo com a bisbilhotice do sistema. Todos – menos um - concordaram, dizendo que representa realmente a possibilidade de uma maior segurança. Quem não concordou, baseou a sua opinião dizendo que “tira a privacidade”, acrescentando que “essa malandragem que anda por aí é capaz de partir o equipamento e assim acaba por ser inútil”. Já o meu avozinho dizia: “cada cabeça, cada sentença”. Mas a mais curiosa das respostas foi dada por uma jovem de 24 anos. Embora concorde com a montagem dos “aparelhómetros”, sempre vai dizendo que acha “que estamos bem a nível de segurança”. Ora ainda bem que nem todos são pessimistas. Pela parte que me toca, também concordo e quanto à privacidade não tenho que dar satisfações a ninguém se vou por esta ou por aquela rua, se vou acompanhado ou vou sozinho ou até mesmo se vou com o Magalhães ao colo.
E antes de terminar a crónica de hoje quero lembrar que logo mais à noitinha os relógios devem ser adiantados 60 minutos. Quer isto dizer que ou nos levantamos mais tarde que o habitual ou dormimos menos uma hora. Sim, porque à meia-noite passa a ser uma e às oito da manhã no dia anterior eram sete. Perceberam? Espero que sim, para não fazerem confusão e na segunda-feira não chegarem ao emprego com uma hora de atraso. É que o chefe também tem relógio e a desculpa já não pega…
Adeusinho, até sábado.




