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MUNDIALIZAÇÃO = GLOBALIZAÇÃO?

16 Maio 2009 [Opinião]


Muito boa gente faz hoje uma enorme confusão entre Mundialização e Globalização e para que as dúvidas sejam desfeitas, eis como eu entendo e vejo estes dois fenómenos sócio/económicos e culturais:
Mundialização é um processo de aproximação entre homens quotidianamente inseridos em espaços geográficos diferentes. Aproximação que pode assumir múltiplas formas: da viabilidade de contacto pessoal á comunicação escrita; da troca de mercadorias produzidas por uns e outros á troca de informações, etc.. Assim sendo, podemos dizer que a mundialização é um processo que se iniciou nos primórdios da humanidade, com avanços e recuos, mas tendencialmente crescente, manifestando-se de forma desigual nas diversas regiões do mundo.
Globalização é a maneira como a sociedade actual, etiquetada de “aldeia global”, está condicionada pelo poder económico. Ou seja, é uma certa fase da mundialização mas com uma certa especificidade e que se caracteriza pelo reforço da ideologia neoliberal, pelo aumento do capital fictício até níveis nunca anteriormente atingidos, num contexto de articulação e mundialização acelerada dos mercados financeiros e pela adopção de políticas económicas, nacionais e internacionais, que reforçam o papel das multinacionais, empresarizam a economia mundial e dificultam a resistência dos povos.
A história da globalização é a história da alteração quantitativa e qualitativa da financeirização, em que grande parte das operações são de capital fictício, isto é, de compras e vendas de títulos e divisas sem qualquer tipo de ligação, directa ou indirecta, aos processos produtivos.

Periodizando-a, podemos datá-la para seu início os anos 80 do século XX. Para tal contribuíram dois aspectos particularmente relevantes: o advento da microinformática, a integração das diversas formas de informação e as redes de telecomunicações, por um lado, e o fim do socialismo na Europa e na URSS e a tendência da hegemonização do capitalismo à escala mundial. São dois fenómenos de natureza diferente, mas que estão, ou podem estar, intimamente associados.

É minha convicção que a mundialização é inevitável e a globalização não o é. Não o é na sua existência e nas formas que assume.
Se assim pensarmos, esta não condenação á globalização, a que parece estar todo o mundo político e económico convencido do contrário, podia e permitia que fossem libertadas energias sociais, vontades políticas e lucidez intelectual para combater esta crise.

É bom que não tenhamos dúvidas que globalização é capitalismo – e frequentemente um capitalismo com uma forma de actuação brutal, para além de ser também uma fase de imperialismo.

Depois de tudo o que foi escrito aqui, muito mais era possível dizer e escrever, mas de uma coisa estou certo, a actual situação tem de ser radicalmente alterada, o que só será conseguido pela luta social e colectiva.
Tempos difíceis se adivinham. Estamos no advento de grandes convulsões sociais que levarão a uma nova ordem sócio/jurídica e económica, assente em novos paradigmas.

Não pretendo ser alarmista nem destabilizar, mas os sinais são mais que evidentes, só não os vê quem não quer.
Senão vejamos:
Como é possível que sejam exactamente os mesmos actores que criaram ou permitiram esta crise que continuem a governar-nos a nível político e económico. Não deviam estar a ser julgados e condenados? Não está provado que houve crimes de toda a espécie, uns por acção, outros por omissão, uns com culpa, outros por negligência? É com estes tipo de gente e com as medidas que estão tomando (mais do mesmo – proteccionismo da banca capitalista e neoliberal), que vamos sair da crise? Vejam-se os resultados:
Os bandidos continuam á solta e no comando das instituições; O desemprego cresce a olhos vistos (prevejo para Portugal uma taxa entre os 12 e 14% ainda durante este ano); o dinheiro não chega às empresas mas chega aos bolsos dos accionistas e gestores da banca, e quando raramente chega, é a preços que configuram crime de usura; a criação de novos pobres (motivado pelo desemprego) é mais que evidente; a fome já é, em muitos casos, satisfeita não pelo produto do trabalho mas pela generosidade alheia, pelas instituições de solidariedade social e ONGs; a desconfiança e desacreditação das instituições, mormente a justiça e das forças de segurança, estão levando a uma desresponsabilização social; enfim, julgo ser mais que suficientes estes elementos, sem necessidade de elencar tantos outros que aqui podíamos relatar, para que só não veja quem não quer.

Concluo este artigo apelando a todos nós que façamos algo que contrarie esta profética e maléfica previsão. Para tal, basta que cada um de nós altere a sua atitude para com a vida em sociedade; que mude o seu comportamento económico e financeiro (fazendo poupança); que sejamos menos consumistas (menos desperdício); que reduzamos o consumo dos recursos naturais (água, luz, gás, etc); que se volte a rentabilizar a terra (agricultura para produção de bens alimentares); que a riqueza criada seja mais justamente redistributiva e menos egoísta; enfim, estes são alguns conselhos, mas cada um per si poderá e deverá empreender todos os esforços que acharem mais adequados para atingir os mesmos objectivos.
NOTA:
Nem que de propósito, já depois de ter escrito este artigo, embora quando for publicado provavelmente já tenha terminada tais jornadas, eis que no Casino Estoril decorrem nos dias 7, 8 e 9 do corrente mês as CONFERÊNCIAS DO ESTORIL, onde este tema tem uma grande relevância e que será apresentado no próximo dia 8 pelo prémio Nobel de economia de 2001, Joseph Stiglitz, que é Professor de Economia e Finanças na Universidade de Columbia e foi, entre 1993 e 1997, membro do Conselho de Assessores Económicos da administração Clinton, tendo assumido a presidência deste órgão em 1995, para além de outros importantes cargos que ocupou, nomeadamente no Banco Mundial, sendo reconhecido como um dos principais economistas mundiais.



Devemos estar atentos a tudo o que nestas jornadas for dito, já que o painel de oradores e os temas e debater são de vital importância para ser feito um diagnóstico e as consequentes medidas de resolução da crise que nos afecta.

Espero e desejo que a mensagem que de lá saia não seja tão pessimista como a minha, mas infelizmente duvido que o conteúdo do meu artigo esteja muito longe da realidade. Vamos esperar e logo vos digo.



LISBOA, 03 DE MAIO DE 2009

Autor: Manuel Santos Graciosa Costa

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