AUTÁRQUICAS – O VENDAVAL PASSOU
13 Outubro 2009 [Opinião]
O vendaval passou. E, depois dele, daquilo que se vislumbra de entre os escombros, o que resta é uma ténue sombra do ancestral império social-democrata autárquico na Região Autónoma dos Açores.
Os resultados falam por si da emergente força socialista que reina um pouco por todos os Açores. Poder-se-á mesmo dizer que os resultados, se traduzidos os votos em mandatos, poderiam até ter sido menos simpáticos para as cores laranja.
A lógica funcionou. O partido do poder, ao saber arregaçar as mangas e fazer bem o trabalho de casa, terá tirado partido das circunstâncias favoráveis ditadas pelo facto de ser governo para ver o caminho facilitado de modo a poder alargar os tentáculos aos redutos dos adversários. E, desta vez, sabendo que detinha um potencial poder de fogo bem superior ao seu adversário directo, o partido socialista não só fez bem o trabalho de casa como começou a trabalhar com muita cabeça e com bastante antecedência, para não ser apanhado desprevenido e, pondo em campo toda a artilharia que o privilégio de ser poder lhe permitia, pôde, no final, cantar vitória.
Historicamente, os socialistas puros não são fadados para a execução das suas políticas. São, porém, exímios na oposição. Como, na prática política dos líderes socialistas actuais, é difícil rever a pura filosofia socialista, pois na maioria dos casos são os interesses pessoais que ditam a adesão partidária, a história também deixou de ser o que era. E, assim, os socialistas não só vencem eleições como também sabem ser poder. Por isso as suas vitórias não se estranham.
Os social-democratas, que sempre tiveram nas suas fileiras gente com pendor para a governação, nunca souberam ser oposição. São muito sofridos nas derrotas, perdem a guelra e a garra mas não perdem a fleuma nem a presunção. Ficam de cabeça caída mas as suas atitudes não são condizentes com uma digna assunção da derrota e tardam a recuperar as forças para travar a batalha seguinte. Quando são apeados, muitos desertam, outros juntam-se ao inimigo e os que restam dispersam-se em lutas intestinas, guerreiam-se internamente, dão uma triste imagem de si próprios, parecendo ser-lhes na prática interdito respeitarem fielmente o comando e falarem a uma só voz, dando assim o flanco e abrindo brechas nas fileiras que os adversários muito bem sabem explorar.
O que acabo de referir aplica-se aos Açores, na perfeição, tanto no caso dos socialistas como no dos sociais-democratas.
Analisando friamente os resultados, há ainda um importante facto a reter. É que a vitória do partido socialista foi uma vitória a “solo”. Ao invés, o PSD, para conseguir os resultados alcançados, teve de se socorrer da muleta do CDS um pouco por todas as autarquias. Uma análise que o PSD terá de fazer internamente é se a aliança com os centristas foi para si uma mais valia ou se foi mais uma acha para a fogueira da derrota. E, nesta análise, não poderá deixar de ter em conta o caso da Câmara de Angra do Heroísmo, onde Artur Lima não foi em coligações. Teve uma votação aparentemente inesperada, relegou o PSD para a oposição e perfila-se para se aliar aos socialistas para constituir um poder maioritário na autarquia, marcando pontos no propósito de se assumir como a terceira força política na Região.
Há vitórias que dispensam aturadas análises, grandes leituras, intrincadas reflexões ou muitas justificações. O caso do Corvo é paradigmático, onde o PS ganhou antecipadamente ao apresentar um candidato com carisma, sabendo-se que, em eleições, a ilha funciona como uma família. O caso de Santa Maria também ficou resolvido quando o PS apresentou a sua recandidatura, apesar de saber que o seu perfil não casava muito com a simpatia dos marienses. Para o bem ou para o mal, dois casos com o PS como principal protagonista a interferir directamente no desfecho.
O caso da Povoação é o mais gritante exemplo da ingenuidade do PSD e de alguma candura na luta política. Francisco Álvares, quando chegou à Câmara, apercebeu-se do catastrófico estado financeiro em que o PS havia deixado a autarquia. Porém, nunca o PSD soube criar teatros de operações para capitalizar politicamente este “handicap” e, ao invés, deu aso a que o Secretário da Administração Interna tivesse em banho maria o processo de requerimento de falência técnica da autarquia para só o despachar a um mês das eleições, precisamente no momento em que interessava ao PS, que assim vitimizou Álvares até à exaustão sem que este conseguisse passar aos eleitores a mensagem de uma vigorosa defesa. E, depois, há ainda o caso das Furnas revelador de um aparentemente desastrado processo negocial.
O PSD tardará a acordar do pesadelo que foi ter perdido o seu bastião de Vila Franca do Campo. Tenho dúvidas sobre se foi Rui Melo que perdeu ou se foi António Cordeiro que ganhou.
O vencedor é dotado de virtudes que não podem ser ignoradas - uma persistência a toda a prova e uma paciência de Job – que lhe terão proporcionado o saboroso gosto da vitória.
Terá, porém, de ser escalpelizada a prestação de Rui Melo. É público o seu conturbado relacionamento com a chefe regional do partido, que não era a sua candidata aquando da disputa da liderança com Natalino Viveiros e com a qual tem travado acesas controvérsias no âmbito da Associação de Municípios.
Mas o último mandato de Rui Melo foi ainda muito “sui generis”. Reconhecendo que quando não se podem vencer os adversários é de boa política aliar-se aos mesmos para conseguir os objectivos, ao longo dos últimos anos foi visível a “boleia” que Rui Melo deu a Carlos César no seu concelho. Mas, para os vilanfranqueses, foi de ouro a moeda de troca. E lá estão o porto de pescas e um cais digno, a “scut” avança a bom ritmo, César teve a primazia de inaugurar o “Açor Arena”, a par dos melhoramentos do governo nas freguesias – os investimentos do executivo em Ponta Garça deram frutos evidentes - vendo-se sempre, nas inaugurações, a Câmara da Vila e o Governo Regional de braço dado, como de resto seria desejável que acontecesse sempre nas iniciativas de ambos os lados (governo e municípios). Mais do que alguns caso de gestão criticados pelos munícipes, presumo que terá sido a postura de Rui Melo a dar a vitória ao partido socialista em Vila Franca do Campo. Ao pôr o seu concelho acima dos seus interesses partidários, Rui Melo terá tido consciência de que se o PSD se enfraquecia a Vila ganhava. E o PS cantou vitória. É justo.
Há duas derrotas que o PSD terá muita dificuldade em engolir. Falo de Rabo de Peixe e dos Arrifes. Aqui não se tratou, a meu ver, de mérito do PS nem demérito do PSD. Independentemente da valia de quaisquer dos candidatos, foi uma luta desigual, onde a política foi outra. Foi por demais evidente que o PS, nestas freguesias, não conseguiu o que noutras conseguiu, ou seja, não quis ou não soube dissimular que, em eleições autárquicas, o governo é o governo e o PS é o PS. São estas menos transparentes, venham elas de onde vieram, que descredebilizam os políticos e afastam muitas pessoas da política.
Na Graciosa e nas Velas funcionou a alternância, fortemente influenciada por Carlos César, e nas Lajes do Pico, os resultados foram ditados pela reconhecida politização do concelho, a beneficiar ainda da herança de Simas Santos.
A normalidade é a tónica da maioria dos demais resultados destas eleições autárquicas na Região, destacando-se porventura a dimensão das vitórias nos municípios do Nordeste e de Praia da Vitória, e o natural afrouxamento social-democrata no de Ponta Delgada, decerto resultante do desgaste da líder e das horas extraordinárias do governo nalgumas freguesias.
Aguardei com alguma expectativa os discursos dos líderes partidários no final das eleições. Berta Cabral e Artur Lima perderam-se nas elegias aos resultados conseguidos em casa própria, desvalorizando as condições de líderes regionais. Se, para Artur Lima, as autárquicas não passaram de um projecto pessoal de poder no município de Angra para conseguir outros objectivos políticos, já Berta Cabral terá dado aos candidatos do seu partido a possibilidade de gerirem as candidaturas do modo que vissem poder vir a conseguir os melhores resultados, não tendo, por isso, naturalmente, assumido a derrota do partido como uma derrota pessoal. É uma leitura possível e admissível. Mas não poderá ignorar a crueza dos resultados globais do seu partido.
Fiquei agradavelmente surpreendido com o discurso de Carlos César. Ao contrário do que lhe é peculiar, até soube ser finamente irónico. Teve um discurso de vitória muito digno. Resistiu a usar a demagogia, a acintosidade e a arrogância em que é perito e que as circunstâncias lhe tolerariam. Respeitou os adversários, teve no discurso uma postura conciliatória e dignificou a sua inquestionável figura de líder regional.
Parafraseando Winston Churchil, reconheço que “a democracia é o pior dos regimes, com a exclusão de todos os outros”. Por isso, reconheço igualmente que, ressalvando um excesso ou outro, com as autárquicas de domingo a democracia está de parabéns nos Açores.
Autor: José Nunes




