Maria Corisca: Recados com amor
22 Novembro 2009 [Sociedade]
Meus queridos! Bem que queria deixar de falar no escândalo das escutas telefónicas, que mais parece o escândalo do “Ballet Rose” no tempo da outra senhora e que abalou o regime de Salazar… Muitos já não se lembram mas naquele tempo as casas de meninas eram proibidas e considerados criminosos os seus frequentadores, só que, numa operação montada pela polícia de então, foram apanhados na rede um conjunto de altas figuras e alguns governantes… Foi um escândalo que deu brado e até chegou ao cinema. Agora, é a face oculta das negociatas, porque as casas de meninas já lá vão e é chão que não dá uvas… Mas ricos, esta semana a troca de galhardetes entre o Presidente do Tribunal de Justiça e o Procurador Geral da República foi uma fita própria de um país onde a corrupção se passeia como dona e senhora. Então não é que o Presidente do Supremo suspende as férias em Setembro, às portas da Campanha eleitoral, para mandar destruir as escutas que são peça vital do processo “Face Oculta” e onde o Primeiro Sócrates fala de intimidades do Estado com o seu amigo de peito Armando Vara? Por outro lado o Procurador Geral escreve e determina que as escutas não podem ser ouvidas pelos jornalistas porque se trata de conversas do foro íntimo do Primeiro Ministro e depois nos jornais diz que lhe apetece revelar o conteúdo das ditas cujas para que tudo se acalme! Isto é, cada um faz o que quer e diz o que lhe convém em cada momento, mesmo que para o efeito, o que era verdade ontem já não será amanhã. Neste vendaval salva-se a serenidade do Juiz Presidente da Comarca de Aveiro, que fora dos “jogos de bastidores e de poder em Lisboa” vai conduzindo e construindo o processo do ano, e da vergonha nacional… coisa que, se fosse na Capital do ex- Império, estou certa que a “Face Oculta” teria o mesmo desfecho do “Apito Dourado”… que já está enferrujado. E a propósito de apito dourado, a minha prima Felisbela enquanto deglutia um chá verde com um bolinho de Mel que me enviaram da Madeira, e comigo comentava estas desventuras todas, disse-me: Prima, só não percebo porque é que foram aproveitadas todas as conversas gravadas entre árbitros, Presidentes de Clubes, jogadores e outros, para levantarem um poderio de processos e só agora com o Primeiro Sócrates é que fecham a sete chaves as gravações para ninguém ouvir o que ele conversou com Vara e que tanto o pode apoquentar…
Ricos! Quem me dera adivinhar o que vai na cabeça do meu querido Presidente César com tanta suspeição que cai em cima do Primeiro Sócrates. De certeza que ele acha que são processos e dúvidas a mais que rondam a porta do Primeiro Ministro… mas está calado como uma zorra… É que se fosse com outros o rico já tinha posto a boca no trombone…
Ricos! Afinal a eleição para o novo Presidente da Associação de Municípios dos Açores acabou por cair no Presidente da Vila da Lagoa. Eu que não sou mulher familiarizada com as guerras da política, acho que a escolha foi sensata, porque João Ponte é um homem de diálogo e de bom senso, o que certamente permitirá fazer uma transição tranquila…
Ricos! Fiquei banzada com a notícia que li no jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio, segundo a qual o Tribunal de Contas obrigou o antigo Administrador do Azores Park a devolver setenta e oito mil euros recebidos indevidamente a título de remunerações. A minha querida Presidente Berta Cabral ainda se livrou a tempo de tamanho empecilho…
Ricos! O banqueiro e caçador mor da nossa praça Gualter Furtado não cabe em si de contente por ver que aquilo que durante anos andou a pregar de Fórum em Fórum para que se fizesse, foi agora assumido pela Administração Pública Nacional. Isto é a renovação todos os anos da Licença de Caça Nacional tinha de ser feita nos Serviços Florestais, e agora o mesmo serviço pode ser feito através do Multibanco (um dos serviços que Portugal é Líder), poupando a deslocação e outros inconvenientes… É de facto uma medida desburocratizante a contrastar com tantas outras que só complicam a vida aos Caçadores… e dos aflitos cidadãos…
Ricos! Aqui para os lados da Rua Gonçalo Bezerra na minha cidade nortenha, há um estabelecimento comercial, onde se encontram, com regularidade, pela hora do almoço e depois do jantar, gente variada, tais como advogados, gerentes bancários, médicos, reformados, professores, empresários, uns jovens e outros maduros… os ricos aproveitam a ocasião para falarem de tudo e de todos, à boa maneira aqui do norte. Não sei se foi por isso, ou por causa disso, que agora também se junta ao grupo o meu querido Presidente Ricardo Silva, o que imediatamente trouxe à memória as célebres tertúlias de outros tempos. Entre os participantes reina grande entusiasmo, pois parece o renascimento dos velhos costumes de socialização que se fazia nos “cafés” da então vila da Ribeira Grande, ou poderá ser o embrião de um novo espaço de discussão política que nesta fase falta nos partidos políticos. Ricos! Oxalá que a moda pegue e que se espalhe a outras localidades para ver se a sociedade acorda e sacode o mal que a deixa indiferente e individualista quanto baste… Força e se precisarem da minha língua viperina… é só dizerem.
Ricos! Na política o que ontem era verde hoje pode ser vermelho.. É dessa forma que os políticos já nos habituaram a ver as coisas... Desta feita foi o meu querido deputado José San-Bento que se candidatou a Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação da Defesa dos Animais, para espanto de alguns sócios da organização. É que o rico foi um defensor acérrimo das touradas picadas e agora é vê-lo na defesa dos animais. Disseram-me que há por aí muita gente da política empenhada na defesa dos animais, porque nalguns países europeus estas organizações têm-se apresentado a eleições com grande sucesso eleitoral. Perante a falência dos partidos políticos tradicionais talvez seja uma solução alternativa e sempre é melhor servir os animais do que aturar os eleitores.
Ricos! Estou muito contente porque quando passei frente ao Jardim António Borges para ir ao jornal que tão generosamente me acolhe no seu seio entregar os recadinhos da semana, dei conta que alguém emparedou o muro que dava passagem para as ruínas do Palacete de Caetano de Andrade e que serve de celeiro de droga e até de palco de um homicídio que foi julgado o mês passado. Estou contente porque reclamei durante meses a fio para que aquele muro fosse vedado e até ameacei encabeçar uma acção popular junto do Tribunal para que as entidades oficiais fossem obrigadas a tomar a medida que finalmente tomaram. O custo daquela obra foi a féria de seis mestres, cinco sacos de cimento e quinhentos blocos de dez. Tanto desperdício que há por aí e tanto tempo para fazerem uma coisa que vai evitar muitas tentações já que a dez metros há uma escola com crianças que viam todos os dias o espectáculo degradante que ali se passava…
Autor: Maria Corisca
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