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Secretário do Ambiente na lagoa das Furnas: Visões de Ponta Delgada

15 Janeiro 2010 [Reportagem]

A Câmara Municipal de Ponta Delgada mostrou, em Lisboa, um conjunto de boas razões para marcar as diferenças que afirmam o seu concelho no contexto nacional e o revelam como uma terra onde a vida tem mais sentido e onde dá gosto morar. O mar, o céu e a terra confundem-se e misturam-se no coração das gentes; as inebriantes belezas naturais, a quietude bucólica do espelho das lagoas e do verde das paisagens e a cativante bonomia dos nativos transmitem uma energia telúrica e uma força de ânimo a que só os mortais insensíveis não se deixarão render.

Estas mensagens, só ao alcance de quem tem nos genes e na experiência de vida a sensibilidade de as captar e revelar, foram traduzidas numa mostra fotográfica, organizada pelo município pontadelgadense, de um conjunto de artistas do seio micaelense, com sobejas provas dadas, todos eles indispensáveis colaboradores e grandes amigos de diversos órgãos da comunicação social escrita, cujo percurso profissional dispensa adjectivações ou referências adicionais: Carlos Costa, Eduardo Resendes, José António Rodrigues, Pedro Monteiro e Vitor Melo.

Desafio correspondido

Esta exposição, patente de 13 a 29 de Janeiro na Sala dos Azulejos do Palácio da Independência, no Largo de S. Domingos, ao Rossio, em Lisboa, foi inaugurada por Berta Cabral, à margem da Bolsa de Turismo de Lisboa, e contou com a colaboração da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, no âmbito do protocolo de cooperação há um ano celebrado entre as duas entidades visando nomeadamente o desenvolvimento deste tipo de actividades. A este propósito, o Presidente da Direcção daquela Sociedade registou e enalteceu o facto de, ao contrário do que acontece com outras entidades, o município micaelense não ter feito letra morta do conteúdo vazado em papel, dando continuidade prática ao acordo escrito, como esta exposição demonstra, o que levou Jorge Rangel a disponibilizar as instalações do Palácio da Independência para outras iniciativas de interesse para os Açores.
No acto inaugural da exposição, perante a quase totalidade dos artistas expostos e na presença dos convidados, Berta Cabral explicou as motivações da exposição: Desafiar vários fotógrafos, cada um com a sua própria sensibilidade, a fazerem a abordagem, revelada pela sua individualidade e a visão de artista, aos diferentes contextos e ângulos captados pelas suas objectivas no concelho de Ponta Delgada.
Berta Cabral quis também aproveitar esta iniciativa como forma de mostrar a “urbi et orbi” as potencialidades do seu concelho e as razões porque ele é o mais populoso e o mais desenvolvido de entre todos os concelhos açorianos, e também aquele que regista maior densidade demográfica, maior poder económico, mais desenvolvimento e melhores equipamentos e atractivos turísticos, o que considerou ser inequivocamente revelador do dinamismo e da capacidade realizadora dos açorianos do seu concelho e da forma como têm sabido enfrentar os desafios do desenvolvimento emergentes da nova democracia e do novo quadro da Europa das nações em comunidade.

Capitais açorianas…

E, de facto, nem os mais desatentos deixarão de reconhecer o que o poder constituído não quer pôr no papel: É que, se a Horta é sem favor a capital do mar e Angra a capital religiosa e cultural, Ponta Delgada é, inequivocamente, a capital sócio-económica e política ou, por outras palavras, unicamente a capital dos Açores.
De resto, muito embora não tenha sido essa a preocupação dos seus autores, os painéis de fotografias patentes nesta exposição, poderão revelar o reconhecimento deste facto.
Admirando as fotografias, o visitante sente-se transportado a um sublime estado de alma onde os problemas, as inquietações e as dificuldades do dia a dia não passam de meros acidentes de percurso que não conseguem perturbar a paz de espírito. E, quem nunca tiver visitado o concelho de Ponta Delgada, ficará com uma clara noção do seu todo e reconhecerá que não são tiradas de retórica as afirmações que aqui faço. Cada uma foto é um quadro vivo e expressivo da realidade e da multiplicidade dos recursos e atractivos do concelho.
Ali, no Palácio da Independência, senti-me em terra micaelense, em solo açoriano, na minha casa em Ponta Delgada.
Revi a serenidade das lagoas, sobrevoadas pelo nevoeiro e envoltas numa misteriosa neblina, cujas belezas um mais ousado raio de sol não tarda a desvendar.
O verde forte das pastagens, ornamentado com o seu armentio, e a luxuriante vegetação, regados com chuvas abundantes e regenerados com o calor do astro-rei, são ex-libris que todo o visitante guarda no álbum das suas recordações.
E, logo ao lado, outra foto mostra o mar, grande, imenso - generoso em recursos mas madrasto face às dificuldades que cria - os barcos a baloiçar, sobrevoados pelas gaivotas, com as ondas a desfazerem-se em espuma nas pedras roliças ou nas escarpas da costa.
Vemos também, em imagem de rara beleza, a inconfundível silhueta dos ilhéus – os ilhéus dos Mosteiros, a terra que o sol, em se pondo, beija por último.

Coração de Ponta Delgada

As Portas da Cidade, coração de Ponta Delgada, tal como a Igreja da Matriz com a sua altaneira torre sineira, surgem também como postais inconfundíveis, e logo ao lado diversas perspectivas da vistosa marginal, com o saco do porto e os barcos ancorados em fundo, felizmente numa visão ainda não castrada com a “obra do regime”…
O Forte de S. Brás é-nos mostrado com um canhão no Jardim fronteiriço, voltado para terra, podendo ser interpretado como sinal da incapacidade dos açorianos para enfrentarem os piratas, os corsários, os emissários do Reino e outros saqueadores que, ao longo dos séculos, sugaram (não sugarão ainda?) o fruto do labor dos açorianos e inquinaram a paz e o sossego que lhes são tão queridos.
Outras fotos mostram-nos as rasgadas artérias e os modernos conjuntos habitacionais, frutos do progresso, e mais ao lado, o Mercado da Graça, uma demonstração dos nossos recursos agrícola, frutícola, hortícola e florícola, verdadeira mostra da envergonhada realidade actual mas também do inegável potencial do concelho para desenvolver estas actividades económicas quando houver quem se decida a tratar este sector com visão de futuro, inclusivamente numa perspectiva de independência relativamente ao exterior.
A grande aposta da edilidade na cultura é igualmente revelada nesta mostra fotográfica. Desde logo, mostrando o grandioso Coliseu Micaelense em gala festiva e, mais ao lado, o desfile das grandes festas do Espírito Santo, a par das actividades sócio-recreativas, desportivas e etnográfico-culturais de que o Projecto “ANIMA” é promotor.

Na raiz do pensamento

Poderemos ver ainda outros aspectos marcantes da vida do concelho. Demonstração inequívoca da fé das suas gentes, temos os romeiros em peregrinação quaresmal, em sofrimento mas com sentimento espalhando cânticos e orações por montes e vales de toda a ilha, e ainda pormenores das festividades do Senhor Santo Cristo, no que pode ser a mensagem da exposição a reconhecer a união de todos os açorianos, residentes e da diáspora, em torno dos seus princípios e valores mais queridos e a dizer que a saudade fala sempre mais alto, mantendo todos unidos, ao menos pela raiz do pensamento, em torno da venerada imagem do “Ecce Hommo”.
Há ainda, dentre muitos outros, o registo curioso de uma imagem dos Motards micaelenses, talvez porque o fotógrafo sabe que eles são uma presença amiga e frequente em muitas iniciativas da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
As objectivas dos fotógrafos captaram imagens que a sensibilidade de cada um sugeriu. Os visitantes da exposição, esses, terão também, cada um, a sua própria sensibilidade para ver e interpretar o significado e a mensagem de cada uma das maravilhosas fotografias expostas.
Eu deixo aqui a minha visão. Que mais não procura ser do que uma parabenização pela iniciativa e um desafio a que, quem puder e logo que possa, não deixe de visitar esta exposição sugestivamente intitulada “Ponta Delgada – Na perspectiva dos repórteres fotográficos”. Exposição que, após Lisboa, seguirá certamente para o Porto e, dentro em breve, será apresentada ao público na cidade de Ponta Delgada.

Autor: José Nunes em Lisboa

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