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Mercado da Graça abalado pela crise e falta de produtos regionais

18 Abril 2010 [Reportagem]

O Mercado da Graça, em Ponta Delgada, ainda conserva a tradição do comércio directo dos produtos, onde o cliente pode comprovar a qualidade dos alimentos e tenta negociar com o vendedor o melhor preço. Trata-se de um comércio justo, sem intermediários e sem taxas adicionais. No entanto, alguns produtores vêm-se obrigados a importar alguns produtos nas épocas em que escasseiam na ilha, não deixando de reconhecer que tanto o cliente, como o próprio vendedor sai sempre a ganhar se vende os produtos directamente. O facto é que o Mercado da Graça já foi mais procurado pelos micaelenses, sendo apenas as gerações mais antigas os maiores clientes do mercado. A indignação pela falta de investimento do Governo na agricultura também se fez notar junto dos clientes.

Adoptar novos comportamentos parece ser a resposta dos consumidores como forma de fazer face à crise. Esta é uma das conclusões do Observador Cetelem, na análise dos comportamentos do consumidor face à actual situação financeira em que se vive, considerando estar-se perante uma necessidade de consumir melhor em vez de consumir menos.
É neste sentido que se fala em comércio justo, que surgiu a par de uma tomada de consciência ambiental acompanhada por uma tomada de consciência do necessário equilíbrio económico. O comércio justo articula-se em torno de três princípios fundadores: assegurar uma remuneração justa do trabalho dos produtores e artesãos, permitindo-lhes satisfazer as suas necessidades elementares, garantir o respeito pelos direitos fundamentais das pessoas (recusa da exploração das crianças, da escravatura) e, finalmente, instaurar relações sustentáveis entre parceiros económicos, em benefício de todos (pequenos produtores, intermediários e consumidores).
Os portugueses destacam-se, claramente, dos restantes países europeus. Se por um lado 11% dos consumidores portugueses declaram já ter adquiridos produtos através de um modelo de comércio justo, a verdade é que são 86% a declarar que o carácter justo da sua compra influencia o seu comportamento de consumo.
Quanto aos europeus, segundo o estudo do Observatório da Cetelem, 44% dos europeus compram produtos justos, de vez em quando, por outro a proporção de consumidores que adquirem frequentemente este tipo de produtos fica abaixo dos 10% na maioria dos países, sendo que os produtos envolvidos no comércio justo dizem mais respeito à alimentação, que representa mais de 80% da oferta.
No desajustamento que existe entre a valorização do conceito de comércio de produtos justos e os actuais hábitos de consumo estão, acima de tudo, o preço e a oferta insuficiente como as duas principais razões. O comércio justo deve ter em conta que o seu crescimento depende da informação existente, da credibilidade do circuito e da atractividade dos produtos, aponta o Observador Cetelem.

Comércio directo na praça

Nos Açores, particularmente em São Miguel, também estabelece-se um tipo de comércio justo, ou melhor, aquilo a que chamamos comércio directo, sem intermediários e sem aumento de preços.
Um exemplo disto é o Mercado da Graça, onde o cliente tem acesso aos produtos quase que acabados de tirar da terra. Subsiste um negócio familiar, onde o cliente negoceia com o vendedor o melhor preço com a garantia de estar a levar um produto de qualidade.
Segundo nos contou um dos comerciantes, João Medeiros, de 77 anos e com o seu negócio no Mercado da Graça há mais de 60 anos, o negócio tem corrido pessimamente. Isto já foi bom mas, nos últimos anos, quando abriram as grandes superfícies, isto quebrou um bocado.
De facto, a crise tem atingido o comércio directo, apesar de os produtos apresentarem, aparentemente, preços mais acessíveis mas, como acrescenta o comerciante, as pessoas mais velhas também vão desaparecendo e os filhos, que não têm por hábito vir à praça, não compram os produtos aqui. A procura tem reduzido e isto tornou-se uma amostra daquilo que já foi antigamente.
João Medeiros garante que os produtos são todos cultivados por ele, embora haja determinados produtos que tenham de ser importados, por não existirem todo o ano na ilha, como a batata, o alho e a cebola.
Apesar disto, o comerciante garante haver muitas vantagens em cultivar os produtos e vendê-los directamente ao cliente pois, como explicou, há aqui vários produtores e os preços são acessíveis. Se chegarmos a um hipermercado não têm determinados produtos e aqui têm uma pessoa que os atende pessoalmente.
Apesar de o atendimento ser personalizado, João Medeiros confessou-nos que sempre vai fazendo uns descontozinhos e uns arredondamentos para os clientes que lá vão tentando regatear os preços com o vendedor, escolhendo os produtos que mais apreciem.
Para além disso, João Medeiros garante fornecer também produtos para as pessoas que vêm comprar os produtos para revenda, quer para restaurantes, quer para alguns hipermercados. Antes de o Hipermercado Modelo abrir, fornecíamos produtos para os supermercados da empresa Pereira & Pereira e como éramos grandes fornecedores também fomos contratados para fornecer produtos para o Hiper Modelo, referiu o comerciante que acredita que o melhor é o cliente comprar as coisas no mercado, por ter liberdade de escolher à vontade e aproveitar os descontos.
Em relação à sobrevivência deste tipo de comércio, João Medeiros diz reconhecer que os hipermercados fazem grandes descontos e os mercados mais pequenos, coitados, não podem fazer isso e é por esta razão que não se aguentam. O negócio está todo tremido e não há aquele poder de compra que havia antes, principalmente pela falta de trabalho. Quem tem algum dinheiro e está a ver as coisas a ficarem mal está-se aguentando e quem não tem poder de compra, não pode mesmo comprar nada.
Na opinião de Edgar e de Mário Sousa, também comerciantes no Mercado da Graça, a situação do Mercado, no passado, já teve melhores dias.
Mário Sousa, de 43 anos, é vendedor de ananás no mercado e referiu que este já não é um fruto obrigatório, havendo procura por outros produtos e é por isso que sente que a procura pelos seus produtos no mercado têm vindo a diminuir.
No entanto, o comerciante não deixa de reconhecer que os produtos vendidos aqui no Mercado são mais frescos, apesar de ter afirmado que muitos produtos são vendidos no mercado por não terem lugar nas grandes superfícies e os dias de chuva não estarem a ajudar, porque as pessoas preferem ir fazer as compras a espaços fechados, como os hipermercados.
Já Edgar não considera que haja mais vantagens em comprar os produtos no Mercado do que comprar nos hipermercados pois, como explicou, há muita concorrência e o preço é muito importante.
O comerciante acrescentou, ainda, que costuma vender os produtos a um intermediário, embora garanta que o melhor é o cliente comprar a quem produz porque sempre consegue-se fazer um melhor preço, quando o intermediário tem de ter o seu lucro e acaba por subir os preços.
A acrescentar a isto, Edgar considera que os jovens não aderem muito ao mercado. Acho que os jovens de Portugal Continental dão mais valor aos produtos do mercado, muito mais do que os açorianos.

Clientes confiam na qualidade dos produtos

Os clientes que falaram connosco também se mostraram satisfeitos com os produtos do mercado, que primam pelo preço e pela qualidade.
Artur Melo, de 68 anos, é agricultor e frequenta, embora que poucas vezes, o Mercado da Graça. No entanto, mostrou-se muito crítico quanto ao facto de estarem a desaparecer do mercado os produtos cultivados na nossa ilha, dando lugar aos produtos importados.
Assim, Artur Melo afirmou que a nossa agricultura está a acabar e o nosso Governo não nos subsidia para podermos produzir. É só turismo, mas os hotéis estão todos a fechar. Como é que podemos viver numa terra destas? Vivemos à custa dos outros, já não temos nada nosso.
O agricultor referiu, ainda

Autor: Marília Ferreira

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