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Empresária diz que faltam iniciativas e genica à Baixa

30 Abril 2012 [Regional]

A Baixa de Ponta Delgada está descaracterizada. Em determinadas horas do dia está deserta. Nem se ouvem os carros passar na rua Machado dos Santos...

Maria Mendonça, gerente da loja “o facho”, entende que ao fim-de-semana os transportes públicos deviam existir pelo menos até meio da tarde de sábado e que deveria haver uma hora na semana em que não se pagasse estacionamento no centro da cidade. Ideias para tentar revitalizar o comércio do centro histórico que tem vindo a degradar-se. Maria Mendonça, que está no mesmo local há 44 anos, diz que “mete dó” ver a cidade tão vazia de pessoas e até da circulação automóvel. Critica os apelos dos responsáveis para que o comércio esteja aberto em dias de chegada de cruzeiros porque diz que o facto de Ponta Delgada ser apenas local de passagem não compensa ter a porta aberta e fazer despesas “para ganhar 30 euros”.

Correio dos Açores – Quando foi constituída a empresa?
Maria Mendonça – 1968 foi o ano de constituição da empresa, portanto tem 44 anos. É uma empresa na meia-idade.
Sempre estivemos aqui na Rua Machado dos Santos. Começou por ser só um lado e, depois, adquiriu-se outra parte e agora temos cerca de 120 metros quadrados.

Porque se chamou à loja “o facho”?
Não sei muito bem porque o meu pai deu esse nome à loja, mas acho que tem a ver com o facho olímpico, que ilumina o caminho das pessoas e das cidades.

O que se pode comprar aqui?
Nesta altura vender, vender, vende-se pouco. Mas temos uma parte de artesanato, candeeiros essencialmente e artigos de decoração.

As pessoas procuram, actualmente, esse tipo de artigos?
As pessoas procuram com menos frequência, é um facto. Não compram ou compram muito pouco porque não há dinheiro. Um candeeiro de 12,50 euros, nesta altura, é caro. De maneira que se vende muito pouco, o mercado desceu a pique.

Tem notado essas quebras há muito tempo, ou começou a senti-las desde o início do ano?
Isso tem-se vindo a degradar ao longo do tempo mas, no ano passado e já este ano houve uma descida muito grande. Creio que houve quebras de cerca de 50%. Os impostos também estão a subir. Por este andar, daqui por uns tempos a Rua Machado dos Santos vai ficar fechada de uma ponta à outra. Não há ninguém na rua, não há barulho na rua e há alturas da tarde que eu estranho a falta de barulho, até dos carros. Antes, há cerca de 2 anos atrás, estacionar na baixa da cidade era impensável. Hoje em dia há lugar para estacionar em todo o lado.
Os restaurantes estão vazios. Depois das 18 horas não se vê ninguém na rua. É uma coisa que me impressiona não haver ninguém na rua, parece uma cidade do Faroeste, fantasma.

Para quem está aqui há 44 anos deve sentir muita diferença.
É uma diferença muito grande, mete dó. Deve haver pessoas em situação muito complicada mesmo, são os impostos que aumentam, são várias conjunturas que coincidiram todas e as coisas estão muito más. Mas estamos a remar contra a maré, vamos ver se conseguimos ou não.

Como vê o encerramento das várias lojas do centro histórico da cidade?
É uma sensação muito triste. Muito triste. Mas penso que não há hipótese, porque o mercado está de tal maneira complicado, a decadência é de tal ordem que as pessoas não têm outra forma senão fechar a porta. Ou o governo dá uma volta, que eu não acredito sinceramente, ou então não sei porque as despesas são imensas, a banca não ajuda minimamente, e a polícia também não. Quando há roubos é uma coisa muito séria, parece que a polícia só serve para marcar multas porque de resto acho que não serve para mais nada. No espaço de seis meses assaltaram-me a loja duas vezes e há tempos tive aqui um assalto e a polícia ligou-me para casa às três da manhã e eu vim. Eles não ficam a tomar conta nem pagando, porque não tinha maneira de substituir as coisas durante a noite. Por isso a polícia não serve para proteger ou protege muito pouco. Mas as multas eles sabem passar.

Dois assaltos em seis meses. A situação pode piorar?...
Acho que sim. Infelizmente, a rua Machado dos Santos serve para muita coisa, são os repatriados que andam por aí bêbados, a cheirar mal e por vezes até meio despidos. Andam a pedir, deitados no meio da rua, a polícia também não pode fazer muita coisa mas o meu pai sempre dizia que “não se dá o peixe, ensina-se a pescar” e as instituições que lhes vêm dar de comer deviam pensar nisso. Tudo isso está a ir por um caminho muito mau.

A baixa citadina tem-se vindo a degradar?
Completamente. A nossa cidade, que é tão bonita, está num estado tão degradado, principalmente em termos de pessoas já nem falo nos edifícios. É que é uma coisa impressionante, são os bêbados, são os assaltantes, são os drogados, isto está uma grande confusão. Será que são sinais do tempo? Devem ser, infelizmente pela parte negativa. É horrível ir ali ao supermercado e eles estarem ali bêbados, chateiam as pessoas, pedem dinheiro e há uns num estado mesmo muito mau, cheiram mal, armam confusão. É isso que temos neste momento na baixa.

Quem é o cliente típico da loja, locais ou turistas?
São mais os locais, algum turista mas não é o turista de cruzeiro. Podem falar que os cruzeiros trazem muita gente e é um facto, mas o turista de cruzeiro penso que não deixa dinheiro assim muito significativo porque isto não é um destino, é um ponto de passagem. Eles ou vão dos Estados Unidos para a Europa ou vice-versa. Por isso, o que acontece é que se vão dos Estados Unidos para a Europa só têm meia dúzia de euros que destrocaram para o início da viagem. E se a viagem é ao contrário já só trazem meia dúzia de euros e gastam o resto. Aquela utopia que o turismo de cruzeiro ia deixar aqui mundos e fundos não funciona. Tomam um café, uma água, comem alguma coisa mas de resto pouco mais. Há dias esteve aí um barco grande e pelo menos, nesta parte da cidade, (Rua Machado dos Santos) não se notou que estavam aí turistas, porque devem ter aproveitado para ir conhecer as Furnas e Sete Cidades.

São poucos os que passeiam pela cidade…
Alguns sim, mas quanto àquele barco específico, foram poucos os que passaram aqui. Compram coisas de um euro e deixam pouco na Região.

Quando os responsáveis apelam a que os comerciantes abram portas ao fim-de-semana quando são esperados navios de cruzeiro, acha que não vale a pena?
Não se justifica, as despesas são muito maiores do que aquilo que se ganha. É verdade que se não estivermos de porta aberta não ganhamos mas a maioria dos turistas fica-se pela avenida marginal. Pagar luz, água e empregados para vender 30 euros não compensa. Nem pensar.

O que poderia ser feito para tentar contrariar este ciclo negativo que envolve o comércio da baixada cidade?
Primeiro que tudo fechar as lojas dos chineses, porque apesar do comércio ser livre acho que eles têm condições que nós não temos, e vende muita coisa de má qualidade. Andamos nós aqui a tentar remar contra a maré, a tentar vender um produto melhor ou então temos de fazer o mesmo que eles e vender do pior que existe. Não é que os chineses tenham coisas só más, mas as coisas boas também custam mais dinheiro e não chegam cá. Neste momento existem muitas lojas de chineses, é um abuso e não vejo que eles tenham assim tanto movimento quanto isso. Já lá vai o tempo em que tinham muitos clientes.





A exemplo da qualidade dos produtos deles, eu tinha aqui uns suportes de acrílico para pratos, que vendo a 45 cêntimos, tive de vender uma quantidade maior para um cliente e não tinha. Disseram-me que eles tinham e eu fui lá ver e tinham um conjunto de 2, exactamente iguais aos que vendo aqui, e estavam a vender a 1,50 euros. Está tudo dito.

A Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada costuma fazer algumas campanhas, nomeadamente no Natal. Acha que essas campanhas se deviam prolongar por todo o ano para atrair mais pessoas?
Nós durante mais de 40 anos fomos sócios da Câmara do Comércio, depois desistimos porque não se vê muita coisa. Há uma sessão ou outra de esclarecimento, um jornal que enviam e no Natal fazem essas campanhas mas no Natal é a altura do ano em que se vende sempre. Claro que se vende menos agora do que há uns anos atrás mas é uma altura que toda a gente compra. São iniciativas muito curtas e são sempre as mesmas, não há novidade, não há um apoio a 100%, acho que falta genica, alguém com ideias novas.

Para fazer o quê por exemplo?
Não sei. Ao sábado podia haver parquímetros de borla, estacionamento oferecido ou durante algumas horas da semana ter estacionamento oferecido. As pessoas queixam-se que para virem para a cidade têm de pagar parquímetro e eu não digo estacionamento gratuito todo o dia, mas durante umas horas. Ao sábado por exemplo não se devia pagar estacionamento. Já era uma coisa que podia ajudar. Pelo menos tentar.
O mais engraçado é que se paga até à hora em que o comércio está aberto, quando o comércio fecha o estacionamento é de borla. É um incentivo muito grande, realmente.
Haver mini-buses ao sábado penso que também ajudaria. Tudo o que seja em proveito do bem-estar da comunidade acho que é de louvar. Se não fosse o dia inteiro, pelo menos até às 14h ou 15h, até o mercado está aberto até essa hora, a baixa está toda a funcionar, por isso devia haver transportes públicos.

Quais são as suas expectativas quanto ao futuro?
Penso que depois das eleições é que vamos saber. Até agora parece que está tudo muito bonito mas depois das eleições é que as bombas vão começar a cair e aí é que vamos ver. Penso que a coisa está muito negra e parece-me que ainda não bateu no fundo e vai ficar muito pior. Não vejo uma luz ao fundo do túnel.
As pessoas também não têm dinheiro mas quem tem não compra cá, apanha um avião e vai comprar fora ou compra pela internet. Mas também não há dinheiro, muita gente não tem nem para comer. Houve um tempo de exageros em que se dava dinheiro à toa e agora não dão nada.

Autor: Carla Dias

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