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“Os Açores mais perto do mundo” nas aventuras de Genuíno Madruga

04 Maio 2012 [Regional]

Deu duas voltas ao mundo como velejador solidário, feitos que nunca mais deixaram o pescador descansar em terra. Todos o querem ouvir...

Genuíno Madruga, desde que deu duas voltas ao mundo, desde que se tornou o primeiro português e o décimo velejador, a nível mundial, a dobrar o terrível Cabo Horn, nunca mais teve descanso em terra. Chovem convites para contar a sua experiência, nos Açores, em Portugal continental e no estrangeiro. Não há criança açoriana que não o conheça nem adulto que não o admire. Pode-se dizer que é um aventureiro, um lobo-do-mar, um destemido, mas todos os adjectivos que conseguirmos são poucos para a coragem e determinação deste homem que deu o nome de “Hemingway” ao seu barco de aventura, inspirado no escritor que escreveu “O Velho e o Mar”. Um barco e um homem que levaram o nome dos Açores aos quatro cantos do mundo, por entre tempestades e bonança para tornar “os Açores mais perto do mundo e o mundo mais perto dos Açores”. Um homem, que aos 61 anos, olha para o mar com o mesmo encanto de criança, quando aos doze anos meteu mãos-à-obra e construiu o seu primeiro barco. “Neste mar dos Açores foi onde principiei as minhas aventuras, mais precisamente na Baía de Porto Pim, a minha primeira embarcação para a pesca, feita única e exclusivamente por mim no Verão de 1963, dando início à minha actividade como mestre pescador, à qual até hoje me dedico, buscando tirar deste mar o meu sustento e o da minha família, sempre de forma sustentável e inteligente”, conta ao Correio dos Açores, à margem do III Fórum Franlin Roosevelt, que decorreu na Horta.
Nas duas viagens de circum-navegação levou “na bagagem as nossas lindas ilhas” e a experiência de quarenta anos como mestre-pescador, mais do que suficientes para lhe darem “a garantia para aventurar-me em mares tão longínquos e tempestuosos”. A primeira viagem deu-se entre 2000 e 2002 e a sua valentia valeu-lhe ser agraciado pelo Presidente da República de então, Jorge Sampaio, com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. A sua segunda viagem, à volta do mundo, entre 2007 e 2009, teve um desafio ainda maior: cruzar o Oceano Atlântico para o Pacífico, de Leste para Oeste, dobrando o temível Cabo de Hornos. E então, a 24 de Janeiro de 2008, tornou-se, como recorda, “o primeiro homem português e o décimo velejador, a nível mundial, a dobrar em solitário o mais tenebroso de todos os cabos. Tal feito valeu-me a admissão como sócio activo da Confraria dos Capitães do Cabo Horn do Chile”. Um orgulho para a família, que sempre o incentivou e o acarinhou, e para o país que lhe deu ânimo e o incentivou a levar mais longe os seus sonhos, de aportar outras terras desfraldando aos ventos a bandeira de Portugal, de um Portugal pioneiro nos descobrimentos marítimos, feitos reconhecidos na epopeia de Luís Vaz de Camões. Mas também reconhecido, como faz questão de sublinhar o navegador solitário, pelas navegações portuguesas desde há muito valorizadas, com grande importância demonstrada a partir da sabedoria do Infante D. Henrique - “O Navegador” - que percebeu a necessidade de estruturar de maneira científica e profissionalizar os homens que iam para o mar, tornando-os navegadores gabaritados e com condições de seguir além-mar, desafiando as leis e as crenças da época e inaugurando novas formas de navegar, superando obstáculos que levaram o nosso país a ser dono de mais da metade do mundo. Lembremos que foi um de seus navegadores que descobriu o Arquipélago dos Açores, Gonçalo Velho, no ano de 1427, iniciando assim o ciclo de importantes homens ligados ao mar que por estas Ilhas passaram”. Mas se o poeta português ficou na história e na literatura portuguesa por exaltar as proezas dos portugueses, se o Infante marcou uma época, o açoriano Genuíno Madruga será lembrado como o pescador-empresário que passou o “cabo das tormentas”, deixando impresso na sua obra levada à estampa sob o título “o Mundo que eu vi” [lançado em várias partes do país, entre as quais Lisboa, com apresentação a cargo do antigo Ministro da República para os Açores e Juíz Conselheiro, Laborinho Lúcio]; que levou os Açores às antigas colónias portuguesas e ao contacto com os emigrantes, que um dia partiram em busca de uma vida de melhor sem esquecer o berço onde nasceram.
O velejador recorda que por onde navegou foi sempre muito bem recebido pela diáspora. “Em terras brasileiras, nos Estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, lugar de destacada importância na imigração açoriana do Século XVIII, bem como no Estado do Maranhão, que guarda em sua arquitectura marcas muito fortes da colonização portuguesa; no Uruguai, cidade de San Carlos e Colonia de Sacramento, que um dia já foram portuguesas; na Argentina, nomeadamente Buenos Aires, com os seus óptimos clubes portugueses, que cultuam, até hoje, já na terceira geração de imigrantes, costumes lusitanos e na bem estruturada comunidade portuguesa mais austral do planeta, na cidade petrolífera de Comodoro Rivadávia, que possui, para além de um clube português, a Santa Casa de Misericórdia, a rádio e o Centro de encontros para os luso-descendentes que lá vivem”.
Dos contactos que teve nos portos onde chegou, guarda memórias incríveis. “Ainda conheci na Samoa Ocidental a família Silva, que me assegurou o Padre Silva que os seus avós tinham vindo das «Ilhas de Portugal».
Em Durban, na África do Sul, encontrei duas açorianas que vivem naquele Continente mas não esquecem as suas origens nas Ilhas Terceira e São Jorge. Cumpri uma das promessas que fiz há anos atrás, em tempos de lutas pela libertação de Timor-Leste, que era visitar o Cemitério de Santa Cruz e prestar a minha singela homenagem àqueles que lutaram pela sua independência”. E aqui destaca a recepção que teve pela Embaixada portuguesa e demais autoridades timorenses, dentre os quais Presidente da República Ramos- Horta. “Ser recebido pelo hoje amigo Ramos- Horta, como sendo o primeiro português a chegar num veleiro à cidade de Dili, foi um marco importantíssimo para perpetuarmos a ligação de Timor com Portugal, unindo laços de amizade e cooperação mútua entre timorenses e portugueses”, diz com emoção.
O velejador solitário, não esquece que da imigração açoriana contam-se histórias interessantes, com factos que demarcam o jeito aventureiro de ser das gentes dos Açores, e ele é mais um deles. “Já no final do Século XVII, Joshua Slocum narra, em seu livro «Navegador Solitário – navegando sozinho à volta do Mundo», que no Arquipélago Juan Fernandez, situado na costa Oeste do Chile, vivia Manuel Carroça, açoriano da Ilha de São Miguel, conhecido pelo apelido de «O Rei», assim chamado pois era o único que sabia falar inglês e ali se encontrava com a esposa, uma brasileira do estado do Rio de Janeiro que se casou e seguiu a sua fortuna com o Rei. Outra história de destaque, é de Carlos George do Nascimento, nascido na Ilha do Corvo em 1885, tendo imigrado para América a bordo de uma baleeira, para tentar a sua sorte na caça à baleia, vindo a herdar, na cidade de Santiago, no Chile, uma livraria de um tio, tornando-se, assim, o primeiro editor do renomeado poeta Pablo Neruda”.
Tanto os que imigraram como os que aqui permaneceram, para Genuíno Madruga, “mostraram a tenacidade do povo dos Açores, que a ferro e fogo forjaram o seu carácter e o seu modo singular de ser e que hoje em dia servem de exemplo para a época em que vivemos”.
Mais do que nunca, diz o velejador, “lutar é preciso, levantar-se contra a miséria e a fome, mostrar à Europa e ao resto do Mundo a força que nós portugueses possuímos, legado deixado pelos nossos antepassados que não mediram esforços para elevar o nome de Portugal”.
Só que Genuíno Madruga continua nesta senda, esta semana, na Horta, volta a contar os seus feitos e na próxima semana estará em Lisboa, e pelo meio volta à pesca, que é a forma do seu sustento da família. É o seu modus vivendi.

Autor: Nélia Câmara

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