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Eles têm direito ao nosso profundo respeito: CUMPRIDORES DE PROMESSAS

12 Maio 2012 [Regional]

Ficamos a olhar quando passam. Perdemo-nos nos seus movimentos. Vemos-lhes o sofrimento. E, por entre a dor, observamos, incrédulos, a satisfação pelo cumprimento da promessa. Há, em muitos deles, um ténue sorriso quase imperceptível por estarem em caminhada, de joelhos - alguns ensanguentados - em direcção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. É inacreditável.

Sempre me intrigaram estes fiéis que acreditam tanto! Joelhos no chão, por vezes a sangrar. Rostos doridos a espelhar a dor. Há anos em que o suor lhes escorre. E outros em que a chuva lhes encharca. Eles desafiam o tempo e o sofrimento.
São cumpridores de promessas ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. Por mais que os tentemos compreender, não conseguimos descrever o que lhes vai na alma. Agradecem ao Senhor a graça recebida. Mas também choram perante a imagem pelas tormentas da vida. É difícil de explicar estas formas de fé. Estão gratos porque o Senhor Santo Cristo lhes concede o milagre. Mas também O enfrentam nos olhos, de lágrimas a escorrer no rosto, porque o Senhor quis que passassem pelos momentos difíceis que viveram e que queriam evitar apelando a Ele. Sinceramente, não é fácil perceber-lhes.
Procuramos padre, sociólogo, psicólogo e até o bispo, mas as suas explicações não vão para além do perceptível. Não há palavras que sejam reveladoras do interior de cada um. Que descrevam uma emoção sentida e vivida que se revela em gestos e atitudes que se pode interpretar, sem se perceber. O que move estes pagadores de promessas? Têm em si uma chama que se vê na ternura do seu olhar, na dor do seu rosto, no sangue que lhes corre nos joelhos. Uma chama que, apesar de estar ali joelho ante-joelho sobre a calçada, se revela indescritível.
Ficamos a olhar quando passam. Perdemo-nos nos seus movimentos. Vemos-lhes o sofrimento. E, por entre a dor, observamos, incrédulos, a satisfação pelo cumprimento da promessa. Há, em muitos deles, um ténue sorriso quase imperceptível por estarem em caminhada, de joelhos, em direcção ao Senhor Santo Cristo dos Milagres. É inacreditável.
Sentirão dentro de si, naqueles instantes, um coração do tamanho do mundo; uma percepção de vida para além do imaginário; um sentido de ligação interior e uma devoção a Jesus Cristo que não se consegue medir com o olhar e que não tem dimensão em palavras.
Ficamos atónitos perante algumas expressões da devoção. Perpassamos os anos. Recordamos um dos anos em que um cumpridor de promessas, a meu lado, comenta perante a imagem do Senhor Santo Cristo: “Ele, este ano, está triste...”. Nós, que não víamos isso, olhamos para ele, voltamos a olhar para a imagem e até somos capazes de, contagiados por tamanha fé, admitirmos que tem razão.
Saltamos para um outro ano: Uma senhora, de xaile negro, ao sol, fixou a imagem logo que ela surgiu na curva, lá ao longe, e não mais os seus olhos deixaram o Senhor Santo Cristo até que passasse por ela e se perdesse do outro lado da rua. Quando o Senhor estava tão perto que quase a podia tocar, a senhora murmura a medo: “Graças a Deus, Ele está a sorrir…”. Tinha os olhos rasos de lágrimas, tal era a emoção.
É incrível como ela conseguiu ver o sorriso que não víamos. Guardamos na memória a sua expressão, a forma simples e sentida como se exprimiu. Deixámo-nos, na altura, ficar até que passassem milhares de promessas em redor do Campo de São Francisco. Seguimo-la na rota até aos autocarros. Andava com dificuldade, entrou num e perdemo-la na ilha. Nunca mais a vimos.
E também não percebemos o que leva um crente, com um molho de círios ao ombro, em promessa, atrás da imagem do Senhor Santo Cristo em redor do Campo de São Francisco e, por vezes, na grande procissão de domingo, ao longo de toda a cidade de Ponta Delgada. Olhamos estes fiéis nos olhos e o que vemos é firmeza e determinação, uma vontade inabalável de cumprir. No seu olhar não se vê mais do que aquele ‘acredito’, uma força que move montanhas. A força do Amor em Jesus Cristo. Esta força, no interior de cada qual, que não se consegue explicar.
São cumpridores de promessas, peregrinos com uma dimensão de fé e devoção sem limites. Hoje, vamos voltar a ver muitos na procissão de mudança da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres do Santuário da Esperança para a igreja.
Chova ou faça sol – e os meteorologistas dizem que vai chover – eles não arredam joelhos dos paralelepípedos de basalto em redor do Campo de São Francisco. Alguns já lá estão logo pela manhã numa fila que vai engrossando com o passar das horas até que a imagem do Senhor saia e faça o giro em redor do Campo de São Francisco.
Há sempre, anualmente, rostos diferentes entre os cumpridores de promessas. Diferentes, sim, mas todos iguais numa enorme fé e devoção no Senhor Santo Cristo. Eles acreditam! E, mais do que isso, expõem-se ao sofrimento por acreditar.
Há quem os questione. Quem os censure até. Dizem que “se estão a exibir” e que “Deus não gosta que se exponham a tal sofrimento por Ele”. Opinam que “poderiam cumprir as promessas, sem passarem por momentos de dor”. Mas, quem somos para julgar o que fazem ou ditar o que deveriam fazer?
E há também os que riem dos fiéis que vêem na Imagem do Senhor Santo Cristo tristeza ou alegria e dos que dizem que o rosto da Imagem expressa um sorriso ou uma expressão de dor. Mas, quem é esta gente capaz de fazer chacota das emoções e sentido de religiosidade dos que acreditam sem ver? Que não aceitam que possa haver quem viva a devoção em Jesus Cristo com uma intensidade infinita e tão assumida?
Podemos até continuar a não acreditar. Mas respeitamos, de forma sincera, estes cumpridores de promessas, esses fiéis que vêem o que os nossos olhos não alcançam, esta dimensão de religiosidade e fé que poderá estar muito para além da que temos.
Eles têm direito ao nosso profundo respeito!

Autor: João Paz

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