Dezassete anos depois: Festa do Espírito Santo regressa à escola Roberto Ivens
23 Maio 2012 [Regional]
Há 17 anos, quando o conselho directivo da escola Roberto Ivens entendeu celebrar a festa em honra do Divino Espírito Santo numa sexta-feira, dia do Mercado da Graça, a decisão surpreendeu quem assistiu à procissão de coroação que percorreu as três ruas anexas ao estabelecimento de ensino. Dezenas de jovens de várias freguesias de Ponta Delgada, professores e contínuos foram, então, coroados pelo padre João Maria Brum durante a missa campal que decorreu no recinto escolar. Agora, 17 anos depois, a escola exibe uma exposição fotográfica com os festejos de então e prepara-se para reavivar a tradição, no interior, realizando o cortejo no exterior do estabelecimento de ensino. Miguel Soares da Silva, há 17 anos presidente do conselho directivo da Roberto Ivens, fala, a propósito, - a nosso pedido - da importância das comemorações do Espírito Santo no meio escolar.
Está de parabéns a Escola Roberto Ivens, com os seus alunos, professores e funcionários por se haverem unido e levarem a efeito a festa mais emblemática do povo açoriano: e Festa da Coroação em honra do Espírito Santo.
Ao transpor a porta principal do lado do Teatro Micaelense, somos agradavelmente surpreendidos com o trono que enche e dá volume ao patamar do primeiro lanço da escadaria de pedra. Cheio, mas sóbrio! Das colchas vermelhas pendem muitas flores naturais, serpentinas com velas e alguns símbolos menores da Festa. Todas as linhas de força convergem para o centro, de onde sobressai a Coroa grande, que não é de ouro nem de prata, mas antes de folha simples, engastada do amor e dedicação dos professores e alunos do ano lectivo de 1994/1995. E por o ter sido, passou também a símbolo da Escola, por nela se concentrar uma tradição secular que une os Açorianos das nove Ilhas num só Povo com alma própria. Benzida na primeira Coroação, entrou naturalmente para o número dos símbolos religiosos que dão sentido à nossa herança e legado imaterial.
Nenhuma outra tradição conseguiu, como esta, manter-se tão viva e, de certo modo tão original, em cada uma das nove Ilhas do Arquipélago, acompanhando-os para a Diáspora do Mundo inteiro onde foram construir novas comunidades sob a mesma Fé e Tradição. Podemos não estar de acordo com determinadas práticas, mas temos de aceitar que, de Santa Maria ao Corvo e para lá do mar oceano, o espírito que anima todos os açorianos é, na realidade, o Espírito Santo. O culto externo à 3ª Pessoa da Santíssima Trindade é a marca cultural mais vincada na idiossincrasia dos habitantes das Ilhas e seus descendentes. Nada os une e os distingue como a sua expressão festiva e íntima. Sem darmos por isso, ele faz parte de nós e modela-nos a todos.
Não sendo a Escola um entre abstracto e estando, por natureza, incarnada no seio das comunidades que serve, é lógico que celebre, no seu projecto pedagógico, a vida que vem das casas dos seus utentes e que a animam todos os dias. É diferente a Escola do Minho, do Algarve, da madeira ou dos Açores... Transmitindo saberes comuns, é forçoso que os incarne no seio dos seus receptores. São as culturas e vivências intrínsecas de cada comunidade que dão riqueza à Escola e lhe incutem a sua cor própria.
Numa escola verdadeiramente inclusiva, e todas o deveriam ser!, cabem, de pleno direito e com pesos relativos, as culturas de todas as micro-comunidades que a compõem. O projecto anual de cada estabelecimento de ensino deveria, por isso, incluir a aprendizagem dos valores culturais de cada um dos seus grupos e a respectiva celebração da sua riqueza. Em dias lectivos, como é bom de ver, deveria cada grupo mostrar aos demais como é que se vivem e sentem as tradições na sua própria comunidade. Só o conhecimento e respeito mútuos permitem que desabroche e floresça a aceitação do outro enquanto ser diferente. Numa escola verdadeiramente integradora não há espaço para guetos. O que se faz com respeito e dignidade, no domínio dos valores e tradições, só pode enriquecer os que, por origem, terão outros modos de manifestar as suas vivências. As culturas chinesas, africanas ou americanas têm, neste mundo cada vez mais global, direito a expressarem a sua vida perante os demais, a par com o respeito que devem aos
que lhe são diferentes. Numa escola de todos e para todos, não se ensinam apenas conteúdos programáticos secos, desenraizados; a vida e as vidas dos alunos, com todos os seus valores, deverão constituir a seiva que dá espírito às salas e aos corredores onde os alunos aprendem a ser e a saber. Por ali, deviam aprender que na vida futura, embora sejam todos diferentes, devem esforçar-se por serem todos iguais pela aceitação mútua das suas diferenças.
Passados dezassete anos de uma outra celebração da Coroação do Espírito Santo nos aposentos velhinhos da Escola Roberto Ivens, é com muito gosto e alegria que cumprimento todos os alunos, encarregados de educação, funcionários e professores, aplaudindo também o Conselho Executivo, por não deixarem cair no vazio do esquecimento e no muito moderno «quanto menos chatices melhor» esta nossa «alma açoriana», na sua expressão mais genuína e transversal a todas as Comunidades que a levaram no baú da Saudade.
A reunião na escola está prevista para as 9h30 de Sábado com o objectivo de organizar o cortejo que percorrerá as ruas em redor do edifício escolar, seguido
de missa campal, com coroações, no interior do estabelecimento de ensino.
Oxalá que o facto, ponderado, de as festividades serem em dia não lectivo e caírem no sábado da Festa que anima todas as freguesias da Região Autónoma, não prejudique a participação nas celebrações escolares!
Fica-me na garganta, o bem antigo «Viv’ó Espírito Santo!». Parabéns e boas festas!
Autor: Miguel Soares da Silva




