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Joel Neto, um romântico sem resposta

11 Junho 2012 [Opinião]

Um escritor é um homem solitário?
Não sei, nunca experimentei. Mas se for como um jornalista, amante da escrita factual, cronista e apaixonado pelo “jornalismo interpretativo”, como diz o impagável Miguel Relvas, é bem provável.
Joel Neto é tudo isso - e ainda por cima terceirense.
Começou no jornalismo desportivo, fez uma incursão pelo jornalismo sensacional do “Correio da Manhã”, subiu a parada até à qualidade da “Grande Reportagem”, experimentou a televisão através da RTP-Açores (que saudades das discussões do “Choque de Gerações”...), hoje é o melhor comentador da SportTV Golfe, cronista invertebrado do DN e JN e... tornou-se escritor.
Um jornalista na ficção?
Não é raro, mas Joel Neto fá-lo com a mestria de quem conhece o uso das palavras certeiras para descrever as situações ou sentimentos mais insólitos ou indescritíveis.
Como descrever a solidão? Como interpretar o amor entre pai e filho? Como explicar este sentimento tão portuga do clubismo futebolístico? E fazer de tudo isso um romance?
Joel Neto conseguiu-o na perfeição.
“Os sítios sem resposta”, assim se chama a sua última provocação, a lançar amanhã, dia 11, em Ponta Delgada, e dia 25 em Angra do Heroísmo, onde faz um retrato, em 190 páginas, do homem romântico que há em cada um de nós.
Lido e relido é uma bela “reprise” da vida da minha geração e da dele (17 anos de diferença), um quadro fiel da vivência rural e cosmopolita de um açoriano que sai da sua ilha cheio de dúvidas e disposto ao sacrifício de tantas mudanças... até de clube!
(“Um homem muda de tudo: muda de mulher e de partido, muda de religião e até de sexo - muda daquilo que quiser, menos de clube de futebol.”).
No dizer de António Pedro Vasconcelos, é “um retrato do vazio e do seu rosto mais nobre: a solidão e o silêncio. A lucidez é o refúgio dos românticos”.
A sua visão de S. Bartolomeu dos Regatos, na Terceira, a páginas 139, a sua relação com os familiares e amigos, as suas recordações de infância rural, tudo num cenário descritivo fabuloso, fizeram-me lembrar as páginas intensas do escritor Cristóvão de Aguiar sobre a sua e minha freguesia.
Não há forma mais magistral de “enredar” o romantismo açórico do que descrever, apenas, a realidade do nosso dia-a-dia, na angústia permanente da busca de uma felicidade.
Assim se faz, também, literatura açoriana.
Cruzar tudo isto, à mistura com pormenores subtis da vida mundana do ilhéu no seu quintal ou no ambiente da luxúria alfacinha, é obra.
Obra com muita observação jornalística? É possível.
Nada é indissociável.
Mas que temos escritor e romancista, não há dúvidas.
E um romântico incurável. Sem resposta.

Autor: Osvaldo Cabral

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