Director: Américo Natalino de Viveiros Director Adjunto: Santos Narciso
Escolha a cor do seu tema: Skin Vermelha Skin Verde Clara Skin Azul Skin Azul Bébé Skin Amarela

Gráfica Açoreana   Diario dos Açores   Atlantico Expresso   Associanissima

Arquivos
A A A

COISAS DA RIBEIRA GRANDE: As famas do pão da Ribeira Grande

11 Junho 2012 [Opinião]

Mercê da riqueza dos solos agrícolas da extensa várzea que envolve a cidade da Ribeira Grande, cuja dimensão bem se avalia quando a admiramos do cimo do miradouro da Coroa da Mata, e da abundância de águas correntes que a caracteriza, bem se pode afirmar que ela foi, sempre, um dos grandes esteios da produção agrícola deste concelho. Isto é uma realidade e não uma basófia de um “fuzeiro” bairrista e exagerado!
Primeiramente, começando pelo ciclo produtivo dos Cereais e do Linho; depois, pelo do Pastel e, seguidamente, pelo da Laranja, todos estes com durações de dezenas de anos, essa várzea desempenhou, sempre, um papel importante. E, essa importância prosseguiu e ainda permanece, quando, no último quartel do século XIX, com a decadência do cultivo e da exportação da Laranja, começa o novo ciclo das culturas agro-industriais da Beterraba sacarina, do Tabaco, da Batata-doce, do Chá, do Ananás, etc… Só nesta última, a do Ananás, é que ela não teve papel de relevância, apenas pelo facto da sua exposição solar não ser a mais conveniente para isso, situada na parte norte da ilha.
Ressalvando as diferenças de dimensão geográfica e de população, quase se pode pensar que esta parte central do nosso concelho, em termos de capacidade de produção agrícola, está para os Açores como a Califórnia está para os Estados Unidos, mesmo que considerem isto mais um desmando de bairrismo...
Mesmo antes do surgimento do cultivo do Milho, no período do grande cultivo do Trigo, do Centeio e da Cevada, esta zona do nosso concelho, juntamente com o benefício dos muitos moinhos de água existentes nas margens das suas ribeiras de caudal permanente, a transformação desses cereais em farinhas constituía uma outra actividade saliente da Ribeira Grande e das freguesias mais próximas dela. No seu Livro] IV de “As Saudades da Terra”, Gaspar Fructuoso refere a frequência com que saiam da Ribeira Grande fileiras de burros carregados com sacos de farinha a caminho de Ponta Delgada, com as arreatas de uns atadas às caudas daqueles que iam à frente, para se poupar no número dos burriqueiros. E, muita dessa farinha servia para se fazer o “biscoito” que os navios que aportavam a Ponta Delgada levavam consigo, como mantimento.
E, logicamente, no seio da várzea e do viver das pessoas que lhe davam vida, com o fabrico de pão, gradualmente, começou a surgir a sua fama. Uma fama que ainda agora existe, com aquele pão de trigo grande e redondo, bem tostado, favado e saboroso, feito nos fornos aquecidos a lenha. Um regalo!
Ainda agora e acerca desse pão, há ainda muitos ribeiragrandenses e pessoas de outras partes da ilha, sobretudo de Ponta Delgada, que certamente bem se recordam do movimento desusado que havia no velho e saudoso Balão, da Rua Direita, especialmente aos sábados e domingos, pela manhã, com o senhor Jaime Borges da Silva gerindo a distribuição dos pães de trigo, retirados daqueles cestos de vimes brancos, gran-des, no tamanho dito de “acarrilhar”, forrados de toalhas brancas ou estampapadas, onde eles vinham, às costas, das casas das padeiras. Por vezes, até se formavam “bichas” à volta do senhor Jaime Borgges e, para além do pão de trigo, sempre ia uma metade do de milho; uma talhada de queijo de S. Jorge, uns torresmos de vinha d’alhos acabados de sair da panela, eu, então, uns chouriços caseiros era uma azáfama misturada de boa disposição e bom apetite! Coisas da Ribeira Grande!
E, com o sucessor de Jaime Borges da Silva, mas, sempre, no Balão, com o senhor Manuel Borges, enquanto esse tradicional estabelecimento da Ribeira Grande existiu, isso foi sempre assim.
Sobre esse bom pão da Ribeira Grande e da sua fama, no vasculho que temos vindo a efectuar em jornais antigos da nossa Terra, há poucos dias, naquele ambiente singular e agradável da Biblioteca Publica de Ponta Delgada, folheando o número 8 de “A UNIÃO”, de 9 de Abril de 1857, deparou-se-nos o texto que a seguir transcrevemos, inserido num extenso artigo da Redacção desse jornal:
“Uma grande parte do pão que se consome em Ponta Delgada é ali importado d’esta villa; julgamos portanto ser da maior utilidade que os seus manipuladores tenham conhecimento das determinações da Câmara Municipal d’aquella cidade a tal respeito a fim de evitarem multas e outros inconvenientes que possam advir à sua indústria, e por isso publicamos em seguida, tirados de “O AÇORIANO ORIENTAL” nº 1157, o Edital e a Postura, em que é regulada a maneira de fabrico e de venda d’aquelle género...”
Segue-se o resto do artigo, o Edital e a Postura da Câmara Municipal de Ponta Delgada, tudo isso assinado pelo seu Presidente, o senhor Amâncio Gago da Câmara.
Por aqui se comprova que a boa fama do pão fabricado na Ribeira Grande na sua maneira artesanal mais característica, já é muito antiga e isto devia ser uma honra para todos nós, os de agora, e um compromisso muito sério para essa boa fama de qualidade e de singularidade. É pena que não saibamos reparar no valor destas coisas e nos deixemos entregar boamente nas mãos de modernismos que acabam por estragar muitas coisas boas das nossas melhores tradições. Pensemos um pouco nisto!

Ponta Delgada, Junho de 2012

Autor: Ezequiel Moreira da Silva

Versão de Impressão