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A (IN)VERDADE NA POLÍTICA

28 Junho 2012 [Opinião]

O Jornal Correio dos Açores de 15/06/2012 trazia uma reportagem sobre uma Conferência promovida pela Ordem dos Economistas durante a qual um dos gurus vindos de Lisboa afirmava que a “causa principal da crise é a falta de competitividade no país e nas regiões” e, para explicar o fenómeno, o autor da reportagem dizia que o tal guru “recuou no tempo para reflectir que é fácil perceber-se como tudo começou, porque houve valorizações excessivas , especulações e investidores que queriam ter retornos elevados” E, claro, acaba por atribuir as culpas aos Estados Unidos, à bolha imobiliária, ao subprime e a outros chavões da gíria economicista que o comum dos mortais não entende, nem tem que entender.
O que as pessoas entendem, porque lhes dói na pele, falta na mesa vazia de comida para os filhos e sobra na angústia quanto ao futuro, é que alguém andou a “comer as favas” que agora estamos a pagar; ou seja, houve pessoas em Portugal, nos Estados Unidos e noutros países que roubaram à descarada, muitas vezes a coberto de leis iniquas, sem se incomodarem com esse simples facto e muito menos com o mal que causavam aos outros. É o que os gurus da economia, como aqueles que vieram aos Açores, por palavras eruditas, querem dizer.
Mas, o pior não é isto! O pior é que, de caminho, vão acrescentando: “agora não há nada a fazer. Agora temos de pagar os desmandos que outros cometeram se não quisermos que o país se afunde. As medidas de austeridade são um mal menor relativamente ao que nos acontecerá se não as adoptarmos, etc., etc. …”
Se as tais medidas atingissem toda a população por igual e os que mais poder económico têm, mais contribuíssem, salvava-se, de uma só vez, a verdade, a ética e o respeito pela cidadania. Mas não! Quem profere tais afirmações falta à verdade, não tem ética e o respeito pela cidadania é o que menos importa; se não vejamos:
- Os mais ricos são os que menos contribuem para a solução da “crise”; muitos deles, ainda se dão ao desplante de afirmar que é necessário baixar salários; quem paga a crise é chamada “classe média”, funcionários públicos, professores, enfermeiros e todos os que têm vencimentos fixos ao fim do mês, sem vislumbre de veleidade de fugir ao fisco.
- O exercício da cidadania, quase limitado como está ao voto de quatro em quatro anos, deixa na mão de meia dúzia de iluminados, pomposamente adjetivados de representantes do povo, o poder discricionário para decidir sobre a vida e o futuro de cada um. Para cúmulo, auferem salários muito superiores ao comum dos mortais e gozam de privilégios que eles próprios se atribuem
É caso para dizer como diz o Povo: “ é preciso não ter vergonha na cara”!.
Vox populi, vox Dei! E a voz de Deus pela doutrina social da Igreja diz que, na realidade, há estruturas de pecado violadoras de dignidade da pessoa, contra as quais é necessária uma vontade politica eficaz que, normalmente, desaparece quando está em jogo o dinheiro e os interesses privados dos detentores do poder seja de que natureza for: “se a situação actual se deve atribuir a dificuldades de índole diversa, diz João Paulo II, não será fora de propósito falar em estruturas de pecado, as quais, como procurei mostrar na Exortação Apostólica Reconciliatio et Poenitentia, se radicam no pecado pessoal e, por consequência, estão sempre ligadas a actos concretos das pessoas qua as fazem aparecer, as consolidam e tornam difícil removê-las” (João Paulo II, Encíclica Solicitudo Rei Socialis, n.º 36).
A concluir, há claramente culpados pela situação em que vivemos. E, como sempre, não são estes que estão a pagar os erros cometidos. Os culpados são, sem margem para dúvidas, os donos do sistema económico-financeiro e os políticos que nos governam há décadas sem coragem para impor regras que travem o descalabro e a roubalheira. É caso para sublinhar a afirmação do Bispo de Santarém e, na altura, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social, D. Carlos Azevedo: “os actos de má gestão dos bens da nação deviam ter outro tipo de punição para além do voto, pois os governantes não devem considerar-se proprietários, mas administradores zelosos para o bem comum da população” (in Correio dos Açores de 24/07/2011, p. 30).
Em tempo de campanhas eleitorais seria bom que os os políticos deixassem de prometer mais betão e cimento armado para edifícios com pouca ou nenhuma utilidade, falassem verdade e, acima de tudo, se preocupassem com as pessoas e não com o seu umbigo.

Autor: José M. Carvalho

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