Com os pés na terra… (69): Protecção aos animais: uma ou mais associações?
08 Agosto 2012 [Opinião]
Não é conhecida a data em que pela primeira vez foi, publicamente, lançado o desafio para a criação de uma associação de protecção dos animais na ilha de São Miguel. Contudo, através da leitura do jornal “Diário de Anúncios”, de 16 de Julho de 1892, é possível ficar-se a saber que a intensão de criar uma associação é anterior àquela data. Com efeito, num texto publicado naquele número do jornal pode ler-se: “Em tempos pensou-se em fundar aqui uma “Sociedade Protectora dos Animais” delegada de Lisboa, mas os mais entusiásticos esmoreceram e não chegou a realizar-se, uma das causas que motivou também isto, foi não se ver aqui um corpo de polícia que coadjuvasse os esforços dos membros da sociedade”.
Alice Moderno, no seu jornal “A Folha”, publicado a 8 de Novembro de 1908, volta a referir existir “de há muito” a necessidade de ser criada “entre nós” uma sociedade protectora dos animais e acrescenta que a ideia terá partido do “advogado e grande homem de bem, Dr. Henrique Ferreira de Paula Medeiros”.
Depois de vários apelos lançados ao longo de mais de pelo menos vinte anos, em 1911 foi fundada a SMPA- Sociedade Micaelense Protectora dos Animais que ainda em 2003 mantinha uma actividade regular. De acordo com o jornal “Açoriano Oriental”, de 2 de Agosto daquele ano, a SMPA e a APA- Associação Açoriana de Protecção dos Animais suportavam, na altura, os desparasitantes, os antibióticos, a castração, a vacinação e outros tratamentos veterinários necessários aos animais do Canil Municipal de Ponta Delgada.
A APA – Associação Açoriana de Protecção dos Animais, foi criada por iniciativa de Florival Correia dos Santos e Fernanda Maria Gonçalves Vieira dos Santos, em 2002, hoje, tem uma actividade muito intensa, baseada no voluntariado, com destaque para as diversas campanhas de adopção de cães e gatos.
Em Março de 2009, surgiu o colectivo virtual “Açores Melhores sem Maltratos Animais”. Este colectivo informal, mantém um blogue e uma lista de discussão, onde os seus participantes, para além de apresentarem denúncias de atropelos ao bem- estar e aos direitos dos animais, trocam textos com carácter informativo e formativo e divulgam iniciativas das associações legalmente constituídas.
A 30 de Novembro de 2009, foi criado o GBEA- Grupo pelo Bem-estar Animal dos Amigos dos Açores - Associação Ecológica que adoptou como declaração de princípios a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, documento que foi aprovado pela Unesco, em Paris, a 15 de Outubro de 1978. De entre as temáticas já abordadas pelo grupo destacam-se as seguintes: Animais selvagens em cativeiro, animais de companhia e “espectáculos” com animais. Este ano o GBEA tem estado muito pouco ativo.
No início deste ano, associado à “Petição pelo Fim dos Subsídios Públicos à Tauromaquia”, foi criado o colectivo informal MCATA- Movimento Cívico Abolicionista da Tauromaquia dos Açores, que mantém um blogue e desenvolve a sua actividade em São Miguel e noutras ilhas dos Açores.
A 19 de julho de 2012, foi constituída a Associação Cantinho dos Animais dos Açores que apesar de estar a dar os primeiros passos tem recolhido animais abandonados, promovido a adopção de animais e efectuado denúncias de maus tratos.
Face a esta nebulosa de associações, algumas pessoas têm levantado a questão: Por que não estão todos os amigos dos animais unidos numa só associação, em vez de dispersarem energia em várias?
Nada teria a opor se apenas existisse uma única associação que trabalhasse as várias temáticas, com destaque para os animais de companhia, os animais selvagens, os animais em cativeiro, os animais de produção e os espectáculos com animais. Contudo, por razões que desconheço, nenhuma das legalmente constituídas parece disposta a ter uma actuação abrangente e tem-se limitado a dedicar os seus esforços à protecção dos animais de companhia, nomeadamente aos abandonados, o que já é uma tarefa incomportável para os meios materiais e humanos disponíveis.
Assim sendo, todas as associações são bem-vindas. Os meus parabéns às pessoas que estão a dar corpo à Cantinho dos Animais dos Açores e votos para que a Sociedade Micaelense Protectora dos Animais volte em força. Os animais precisam e a memória de Alice Moderno assim o exige.
Autor: Teófilo Braga




